Apesar de, ao acordar, não ter como saber disso, aquele não iria ser um dia como os outros. Assuntos de ordem administrativa, demasiado grandes e complexos para as pequenas repartições públicas da sua terra, tinham-no trazido àquele hotel da capital. Ao contrário do que supôs, dormira suficientemente bem para se levantar bem-disposto. O que, não parecendo, sempre ajudou a não se escandalizar muito com o facto de ter encontrado um rato morto à saída do elevador. Em vez disso, informou o rececionista, um rapagão de vinte e poucos anos muito cioso das suas convicções. “Impossível. Aqui não há ratos”, repetia enquanto pegava no telefone para chamar alguém da manutenção que viesse acabar de matar tamanho disparate. Durante a espera, tentou adiantar-se-lhe e procurou no monitor a gravação do local. Realmente, à frente do elevador havia qualquer coisa no chão que parecia, mesmo, um rato morto. Só que, como ali não havia ratos, não podia ser. Não era. Perante negação tão categórica, pouco havia a fazer. Dificilmente se conseguiria repor o rapaz a relacionar-se honestamente com o mundo. Quer se queira, quer não queira, parece que existirá sempre um ecrã, entre ele e a realidade, a impedir que o faça. E, no entanto, o cadáver do bicho estava, efetiva e inegavelmente, do outro lado do vidro. Porém, mais preocupado com o que ali o traz, do que com as divagações filosóficas que a situação parecia requerer, o nosso hóspede prefere deixar a conclusão do episódio com o pessoal do hotel e ir à sua vida.
Chegado ao átrio da Direção-Geral, identificou-se e mandaram-no esperar. Quando já pensava que chegara demasiado cedo, depois de meia hora de espera sem dar por qualquer funcionário, além do segurança que inicialmente o recebera e da senhora que revestia os caixotes do lixo com os sacos de plástico que ruidosamente ia sacudindo, ouve o seu nome e a indicação de que deveria dirigir-se ao primeiro andar. Do mal o menos, pensou. “Diz-me que o seu processo ainda não teve qualquer desenvolvimento, contudo, estou aqui a ver a indicação de que está concluído”, informa, sem despegar o olhar do monitor interposto entre ambos, a pessoa que o atendia. A ser verdade, teria acontecido ao fim do dia anterior, pois passara pelos serviços locais antes de sair para Lisboa e estava tudo na mesma. “Desde quando?” Arriscou perguntar, mesmo sabendo como esta gente é altamente suscetível a perguntas e que não tinha qualquer hipótese de poder ver o que a outra lhe dizia que via através do vidro do outro lado do plástico preto. “Não lhe sei dizer.” Obteve, juntamente com o “posso ser útil em mais alguma coisa?” da praxe, como resposta. Não. Em boa verdade, nem sequer lhe tinha sido útil com esta, como é que ainda tinha descaramento para lhe perguntar por mais. De repente, sentiu-se tomado por uma inusitada vontade de fazer explodir todos os ecrãs com que ia embatendo na sua relação com os outros, todavia, lembrou-se de que já nada os faria desaparecer e desistiu. Mas que, desde aí, não há quem o encontre do lado de fora dos vidros, desprevenido, não.


