Editorial de Luís Baptista-Martins: Sozinhos perante a tragédia

«Estamos vivos!», respondeu-me o Francisco Rebelo dos Santos, meu colega, jornalista e diretor do “Jornal Região de Leiria”, quando lhe perguntei, na semana passada, como estava perante a calamidade que a sua região estava a enfrentar. «Estamos vivos e a tentar cumprir o melhor possível a nossa missão. É um cenário de guerra», disse o Francisco, emocionado pela missão de informar e dar voz à sua comunidade, uma comunidade que se sentia abandonada.
A Passagem da depressão Kristin por Portugal, e em especial pelos distritos de Coimbra, Leiria e Castelo Branco, numa quarta-feira trágica, causando pelo menos nove mortos e uma destruição inédita – uma calamidade dantesca, que mostrou a debilidade do país, a pobreza e carência da população, e a enorme distância entre Lisboa e o país real, ali, a meia-dúzia de quilómetros.
Casas e fábricas destruídas, telhados partidos e coberturas pelo ar, árvores cortadas e arrancadas, corte de estradas, comboios suspensos, escolas fechadas, ruas alagadas, a destruição foi muito para além do que se poderia imaginar no primeiro dia e, enquanto em Leiria se chorava às escuras, o resto do país comentava o debate entediante entre António José Seguro e André Ventura e, depois, ficou inebriado na ressaca da classificação histórica do Sporting em Bilbao ou do golo de Trubin contra o Real Madrid. Só depois, muito depois, o país despertou para a dimensão do terror que as populações, em especial do distrito de Leiria, viveram – as condições climáticas extremas associadas à depressão causaram destruição que vimos tantas vezes ocorrer no Haiti, na Sumatra ou em tantos outros locais recônditos. Pensávamos que só acontecia aos outros e não nos preparámos para a possibilidade de um dia poder acontecer em Portugal, apesar dos muitos avisos sobre as consequências das alterações climáticas…
A população das aldeias, vilas e cidades do distrito de Leiria, sem água, sem eletricidade, sem comunicações, sem abrigo ou transporte ficaram abandonados à sua sorte durante quase uma semana. E o governo letárgico não percebeu a urgência da realidade. As lágrimas na face de quem perdeu tudo, dos empresários que olham cabisbaixos para a devastação, das pessoas idosas que não sabem o que comer, dos que estão desorientados à espera de ajuda, dos bombeiros impotentes, dos presidentes de junta que pedem ajuda, dos presidentes de câmara que perguntam onde está o governo… Onde é que já vimos isto? Pois, todos os anos, durante o verão, ao vermos arder serras e campos, com as labaredas a chegar às casas enquanto gritamos por socorro impotentes perante a tragédia. Uma vez mais, falhou o socorro, falharam as instituições, falhou a proteção civil, falhou o Siresp, falham os governantes… e a população, como sempre, fica desamparada.
A dimensão brutal da tragédia ainda não está apurada e vai demorar dias, semanas ou meses para se perceberem as consequências, mas a ajuda às pessoas tem de acontecer já. E é para isso que há governo e governantes, Câmara municipais e autarcas, proteção civil e bombeiros. O estado de calamidade é para todos socorrermos quem precisa. Paulo Fernandes vai ter a difícil missão de coordenar a recuperação dos territórios devastados. Uma missão para a qual o governo vai disponibilizar milhões, durante os próximos anos, mas o estado de emergência precisa de apoio imediato, sem formalismos, nem burocracia, mas de colaboração excecional – quem quiser ajudar pode fazê-lo através da plataforma tempestadesos.com. Desde o jornal O INTERIOR, fica o apelo de solidariedade a todos os leitores.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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