Editorial de Luís Baptista-Martins: De Marcelo a Seguro

A 9 de março de 2026, a política portuguesa viveu um momento histórico com a passagem de testemunho na Presidência da República. Após dez anos de mandato, Marcelo Rebelo de Sousa encerrou o seu ciclo em Belém, transmitindo o cargo a António José Seguro, que se tornou o 21º Presidente da República de Portugal. Esta transição representou não apenas uma mudança de rosto, mas também uma mudança de estilo, marcando o fim de uma era de «presidência de proximidade» e “selfies” para dar lugar a um novo perfil, caracterizado como mais institucional e formal.
O último dia de Marcelo Rebelo de Sousa foi marcado pela habitual descontração que definiu o seu estilo, sendo avistado em afazeres pessoais antes da cerimónia oficial, um contraste com a solenidade da sua condecoração com o grande-colar da Ordem da Liberdade, imposto por António José Seguro no Parlamento. Marcelo, ao sair, deixou um legado de intensa atividade política, com três dissoluções da Assembleia da República e uma constante mediação política, descrevendo o seu pós-presidência com o humor habitual, referindo-se a ele como «deserto eterno».
Marcelo foi o presidente que chegou a Belém depois da “troika” e de cinco anos difíceis para Portugal e para os portugueses, um período que todos queríamos deixar para trás e o Presidente das “selfies” ajudou dando-nos conforto na sua proximidade e presença contante. Emocionámo-nos com ele perante o flagelo dos incêndios ou a pandemia. Ou ainda, no final de mandato, perante a ausência de todos, em que foi o único poder solidário perante o comboio de tempestades e as cheias. Outros preferirão recordar as gémeas, os excessos do comentador, as demissões ou os atropelos ao bom-senso… Marcelo vai deixar saudades!
Por sua vez, António José Seguro tomou posse com a promessa de ser o “Presidente de Portugal inteiro”. O seu discurso focou-se na solidez das instituições e na preservação do sistema de valores, traçando linhas vermelhas de estabilidade.
A relação entre o antecessor e o sucessor foi marcada por um abraço simbólico na tomada de posse, demonstrando cordialidade institucional. Marcelo Rebelo de Sousa elogiou o novo Presidente, afirmando que Seguro será «um grande Presidente» e instando os portugueses a apoiá-lo. A transição, assim, formalizou a entrada de Seguro com a missão de manter a «cooperação» institucional, como prometido na sua primeira intervenção no Parlamento.
Este momento encerra uma década onde a popularidade e a intervenção constante de Marcelo foram o timbre de Belém, abrindo um capítulo que promete ser mais contido e focado nas instituições. A transição de Marcelo para Seguro reflete uma evolução na exigência dos portugueses, que agora esperam de António José Seguro uma «serenidade e exigência» para o futuro de Portugal. Um futuro em que esperamos que o novo Presidente, que nasceu em Penamacor, não esqueça as origens, seja promotor da coesão territorial e da correção das assimetrias regionais. Seguro não será Marcelo, mas será seguramente um Grande Presidente.

PS: A exemplo do que vem ocorrendo há quase 20 anos, Marcelo Rebelo de Sousa renovou na semana passada a assinatura do Jornal O INTERIOR – deixou a presidência da República, mas continua o seu bom hábito de ler jornais e manter-se informado sobre o que se passa no país e em ”O INTERIOR”. Orgulhosos por tão ilustre assinante, votos de um feliz “deserto eterno”, caro Professor!

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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