Com o menino, (não) vem o jeitinho

Escrito por Fidélia Pissarra

Quando a maioria desconhecia o papel da ciência nas suas próprias vidas, acreditava-se que qualquer problema poderia ser resolvido pelos hábitos. Sendo caro e estando longe, para quê consultar um médico quando o costume era tratar as constipações com aguardente? Claro que, por a doença poder não ser bem uma constipação e beber aguardente poder fazer mais mal do que bem, na maioria das vezes o “costume” acabava por não funcionar. Porém, como o mais importante era manter os costumes, desde que se mantivessem, ninguém se ralava muito com isso.
Saindo mais caro, ainda, estudar e viajar, para quê ler, quando para sobressair o costume era falar alto ao partilhar um naco de toucinho e um copo de vinho? Claro que quanto mais se bebia mais alto se falava e mais se sobressaia e, ao contrário do primeiro, a maioria das vezes este costume até acabava por funcionar. Podia não resolver os problemas de quem os tivesse, mas lá que alardear sapiência e empatia, ainda que saloias, dava em fazer sobressair quem o fazia, dava.
Aliás, se pensarmos bem, depois de ninguém dispensar médico e farmácia, o costume de alardear, à volta de uma fogueira, talvez seja dos poucos costumes que deixamos persistir.
Tanto assim será que dificilmente acharíamos explicação, além da do alarde de alguém, para, passados uns quantos anos, muitas promessas, conversas e consultas públicas à frente da fachada principal da Sé da Guarda permanecerem os destroços da “Casa da Legião”, subsistirem os escombros de duas construções na “Praça Velha” e, na Augusto Gil, o edifício, que foi garagem, teatro e igreja, continuar a desintegrar-se a olhos vistos.
Claro que haverá sempre a possibilidade de explicar que, quais símbolos de uma governança esquisita, todas estas ruínas continuarem a sê-lo por, genuinamente, esperarem ser convertidas em “equipamentos culturais”. Todavia, numa cidade em que a cultura, por opção política, tem dado em sumir-se da nossa vista, essa explicação não seria lá muito verosímil. Principalmente, se se pensar que, passados 20 anos, continuamos a aceder ao TMG pelas traseiras do dito e que o atual nível da programação cultural e dos discursos oficiais anda pelas ruas da amargura. Isto, já para não falar do rol de “equipamentos culturais” deixados às moscas um pouco por todo o lado.
Bem se sabe que, hoje em dia, a afirmação da verdade não passa de uma convenção para qualquer relato fantasioso; contudo, este, não poderá ser o caso. Querer parecer que se prioriza a cultura, depois de tão mal a ter tratado, é quase tão disparatado como insultuoso. Na medida em que, permanecendo nos discursos, não tem sido, assumidamente, uma prioridade. Pelo que o mais provável é que continue a ser evocada apenas pela importância que, julgam, eventuais eleitores possam continuar a atribuir-lhe. Por ventura, importância até bem maior do que a atribuída à degradação do espaço e equipamentos urbanos e do uso que deles se vai fazendo.
E, por muito bizarro que tudo isto possa parecer, nem sequer o é mais do que este nosso costume de acreditar que o menino dá o jeitinho e o churrasco a mundividência.

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Fidélia Pissarra

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