As eleições que mudam o regime

Os resultados das eleições legislativas do passado fim de semana alteraram o panorama político-partidário com que convivemos nos últimos anos. Destas eleições, a AD saiu mais forte e legitimada para governar e a liderança de Luís Montenegro saiu revigorada (se bem que a Spinumviva vai continuar a persegui-lo). O PS sofreu uma hecatombe eleitoral por todo o país. E Pedro Nuno Santos sai de cena pela porta pequena, derrotado e derreado pelo terceiro pior resultado de sempre dos socialistas – o homem que queria pôr as pernas a tremer aos alemães, saiu pela porta pequena da liderança partidária, sem reconhecer a sua própria ambiguidade e os equívocos de uma caminhada perdedora. O Chega abala completamente o regime, por mérito de André Ventura e imenso demérito dos adversários.
Dizer simplesmente que «nunca a direita foi tão forte em Portugal» é constatar o óbvio. Mas procurar explicar a tendência apenas como um ciclo que ocorre em muitas geografias, é não querer refletir sobre a origem da derrota da esquerda e é não querer perceber como chegámos aqui.
Historicamente a extrema-direita cresce e prospera nas crises de regime, no desencanto ou no desespero; cresce quando os regimes falham, quando os partidos democráticos não oferecem estabilidade ou respostas; cresce quando o descontentamento com os políticos e as políticas se generaliza. Por isso, o Chega cresceu, dando lustro e voz à insatisfação, aos muitos que se alhearam do regime, aos que se sentiam defraudados… O Chega voltou a crescer em 2025 porque as moções de censura ou a moção de confiança geraram maior instabilidade e irresponsabilidade e promoveram a perceção de que os políticos não estão preocupados com os problemas reais das pessoas. Os portugueses querem soluções para a sua vida, querem ouvir propostas e compromissos sobre saúde, sobre urgências que não encerram, a escola dos filhos, a segurança num tempo de desconfiança sobre o desconhecido, os transportes para irem trabalhar, a habitação, etc – tudo ao contrário do que ocupa a bolha mediática, os jornalistas e o “comentariado”, os políticos e a elite, que vivem do pessimismo, do derrotismo, das querelas e denúncias, do debate subjetivo ou da ética republicana. Mas as pessoas querem é soluções para a sua vida. E por isso, no final do dia, elegeram a AD que lhes dá mais segurança. E disseram chega ao egocentrismo partidário.
No distrito da Guarda, a AD venceu. Dulcineia Catarina Moura vai continuar no parlamento, de onde até poderá sair para outros voos; o PS desencontrou-se e, mesmo sem a hecatombe nacional, nunca cerrou fileiras à volta de Aida Carvalho (perdeu mais de cinco mil votos em relação às eleições de 2024); o Chega limitou-se a viver do impacto de André Ventura. Num distrito com poucos eleitores e que elege apenas três deputados… não contou nas grandes alterações que se viveram no país.
O caminho de divergências estéreis trouxe-nos até aqui. O PS tem de reerguer-se e, com o PSD, voltar a ter a capacidade de ser parte determinante do futuro do país – a maioria continuou a votar no centro. E se nestas eleições houve milhares de desiludidos que escolheram mudar o seu voto do PS para o Chega foi por culpa da insensatez dos seus dirigentes. E será o PS quem terá agora de viabilizar um novo governo da AD. Não há outro caminho para a estabilidade democrática.

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Luís Baptista-Martins

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