A Inutilidade das Coisas

Escrito por Maria Afonso

A tarde estancou. O vento faz-se sentir nas folhas das árvores sem lhes atingir o rosto. As eólicas, ao longe, continuam a rodar numa aparente realidade. Os relógios perderam-se no tempo. Uma velha clepsidra indica a que horas chega a lua. Ergue os olhos e atreve-se a adivinhar o anoitecer. O céu abre-se em dois e quase desaparece. Um sol ainda morno aquece-lhe a pele. Fecha os olhos. Um tecto branco submerge-a na claridade como se a capela sistina invocasse as cores.
Numa espécie de Viagem à Volta do Meu Quarto todas as paisagens que vira retornam. Não há mobília nem quadros onde projectar as imagens. Mas um tecto branco pode ser uma folha ou uma película. Tudo quanto observou do mundo, tudo o que a impele a indagar do mundo vive nesse tecto. As pedras sedimentadas num equilíbrio milenar e a nascente do rio que lhe matou a primeira sede. Os sons da vida a engrossar veias de braços possantes. Castanheiros robustos a estenderem-se até à fronteira.
Sentada no chão ladrilhado de um museu e o olhar fixo no rosto de um homem-deus. O Beijo pintado na tela e o tempo ilimitado. Os passos a calcar pedras de ruas de um bairro gótico e a Frida ali, exposta, como se escusasse uma cama e o sofrimento não existisse. As correntes de uma ponte e as bicicletas com cestos de flores. A primeira sinagoga e o véu a cobrir a cabeça. O azul de um rio a valsar sob o telhado de uma ópera. Os sabores.
Achada na Medina. Ruelas a desembocar noutras ruelas. As cores das especiarias e a sonoridade das tâmaras. A luz transportada nas mãos até o anil chegar. Os nómadas que descem as montanhas carregados de peles de ovelha. A terra vermelha e os rostos escurecidos. O transpor dos continentes e um mar nas proximidades. O deserto sonhado e a noite idealizada. O cheiro a menta fresca nos lábios. A poesia que se diz. A poesia que se ouve. A poesia que se cria.
Na esplanada junto ao canal. O miúdo que aprende a andar de bicicleta e a avó que o ama. O bronze dos quatro cavalos de Constantino. A Alquimia de Pollock na sua frente. A procura da ordem no caos e os pés na água transparente. A beleza nos gestos de Tadzio e a impossibilidade de a reescrever. O fascínio. O palácio de pedra com Rafael por dentro. A dança colorida numa praia deserta e a chuva impressa na areia. Os telhados da catedral. O chapéu de menina esquecido no banco. A mão que infindavelmente a segura.
No chão da Primavera serpenteada de flores e a alma de Galileu a pairar no rio. O coração gravado na pedra. Expedições intermináveis a rondar. A depuração da árvore em manhã de orvalho. A neve a abrasar a boca. As mãos lavadas no pó do xisto. A subida à torre. O algodão doce a melar os dedos. E aquela verdade absoluta em De Maistre – o mais importante numa viagem não é o destino, é o viajante.
Enquanto a terra não der sinais de movimento o tecto será sempre branco. Há quem diga que Miguel Ângelo nunca morreu, mas não crê que lhe venha pintar a tarde nos olhos. Talvez lhe esculpa uma Pietà nos braços. A dor pode sempre mover a terra e desprender a tarde.

Sobre o autor

Maria Afonso

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