Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Ponto final, barra, hífen

As eleições para a Câmara Municipal da Guarda foram vencidas por uma coligação entre o Nós, Cidadãos e o Partido Popular Monárquico, reflectindo uma força histórica da nação, que várias vezes ao longo na história observou uma união entre o povo e a monarquia, contra os nobres que conspiravam por Castela. Na terra que acolheu o afago de D. Sancho, foi uma vitória com cheiro a Alexandre Herculano.
Verifico, no sítio oficial da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, que estas duas forças políticas se apresentaram coligadas em vários municípios, com a curiosidade de se nomearem umas vezes NC.PPM (na Guarda), NC/PPM (Porto, Ovar, Mêda) ou NC-PPM (em Paredes). Houve também uma PPM.NC em Oeiras. A única variante que elegeu vereadores foi a NC.PPM, mostrando que, do ponto de vista eleitoral, a pontuação faz diferença e que a ordem dos factores não é arbitrária.
Imbuído de curiosidade por esta agremiação, verifico que as últimas notícias na página do partido Nós, Cidadãos são de 2021 e a última publicação no seu Instagram é de Junho de 2024 (Não verifiquei nada no TikTok porque não tenho idade para saber mexer nisso). Sabendo que este partido, além da coligação que venceu a Câmara da Guarda, ganhou sozinho as presidências municipais de Belmonte e Soure em 2025, mostra que esta organização política é realmente denotativa. Nós, cidadãos, é que vamos andar aí a fazer campanha, não são os marketeiros da internet. Nestas eleições, ficou provado que o Nós, Cidadãos só ganha eleições quando concorre sozinho ou quando está separado do PPM por um ponto final.
O Nós, Cidadãos é um partido sui generis – e não é só pela ausência de comunicação digital. É por ser um oxímoro. É um partido, uma associação política que agrega pessoas com pensamento político semelhante – e consequentemente segrega aquelas que dele discordam. Sendo evidente que todos os partidos são compostos por cidadãos, a designação de cidadãos no caso do Nós, Cidadãos procura remeter para a ideia populista de que nós, cidadãos, somos diferentes deles, políticos. Mas, ao ganhar eleições, os membros do Nós, Cidadãos tornam-se neles, os políticos.
Este é um problema causado pela mania contemporânea de usar expressões em vez de designações para nomear os partidos. É o mesmo caso do Chega, que até chegou a usar um ponto de exclamação. Até pode ser giro dizer Chega, Chega, enquanto se está na oposição. “Chega disto, Chega daquilo, estamos fartos, queremos mudar.” E se chegarem ao poder? Vai ser interessante ouvir a oposição democrática dizer “Chega de Chega”, e os partidários de Ventura responder, “Não Chega, não. Nós, cidadãos, juntos pelo povo de ADN livre, queremos é mais.”
Se aí chegarmos, a minha esperança será o ponto final.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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