Se fosse pessoa, há 51 anos o 25 de Abril seria quase idoso, nome utilitariamente suavizado, pela sociedade, para os quase velhos. Hoje, não fora pelo desgaste que algumas almas penadas teimam em provocar nas palavras que lhe deram sentido e vida, Liberdade, seria quase jovem. Mas como bem se sabe, por muito que as queiramos ignorar, as almas penadas existem precisamente para isto: estragar o que um dia tanto almejámos. Começam por, paradoxalmente, rodear os mais beneficiados pela Democracia e convencem-nos que, apesar dos regimes caricaturalmente fidalgos e elitistas que defendem os excluírem, lhe serão sempre mais favoráveis. Recorrendo à reivindicação do direito de limitar o direito dos demais, gostam de clamar pela liberdade que a democracia, alegadamente, não lhes permite. No fundo, querem é ser livres para, arbitrariamente, poderem limitar a liberdade conquistada pelos outros. Como descaradamente confessam ambicionar, querem poder determinar quem pode ser o quê. Quando e onde o pode ser. Com ar cândido e voz indignada, viram a palavra Liberdade do avesso e vão fazendo o mesmo às palavras Democracia, Trabalho, Pão e Habitação para que ninguém as reconheça. Se as não reconhecerem, as pessoas deixam de acreditar nelas, de pensar através delas e, quando assim não é, passam a fazê-lo pelo seu contrário, o que vai dar no mesmo.
Por isso ser-nos-á de todo conveniente não deixar de pensar a Democracia como um ser vivo, frágil e caprichoso, que depende dos nossos cuidados constantes, e exposta às mazelas que a idade poderá provocar-lhe. Cinquenta e um anos tanto poderão significar a plena madurez, livre das dores de crescimento e adaptação, como a altura propícia à displasia. Realidade que, na hora de defender a nossa Democracia, não poderemos ignorar. O 25 de Abril, as conquistas do 25 de Abril, depende das palavras que o definiram. Deixar de as cuidar, deixando-as desprotegidas e à mercê de quem as quer estropiar, extirpando-lhes o sentido, será o mesmo que aceitar o seu esmorecimento. Coisa que, atendendo a que só em Democracia poderemos aspirar ao direito à Liberdade, Igualdade e Inclusão, não será, de todo, aconselhável. Na impossibilidade de fechar todas estas palavras numa redoma, para que nada nem ninguém as destrua, restar-nos-á o dever de as defender. Desde logo, de as defender da apropriação abusiva de quem só se socorre delas para que não possamos intuir a sua intenção de nos fazer retornar ao regime a que o 25 de Abril, felizmente, pôs fim. Porque, por mais que o desejem e pintem, o “antigamente” deles foi muito diferente do nosso. Nem foi bom, nem o queremos reviver. E, ao contrário deles, também não é pelo avesso das palavras que gostamos de ir. Preferimos o seu lado direito. Pelo lado direito da palavra Liberdade podemos expressar a nossa opinião, proibindo a propagação do racismo, da xenofobia, da misoginia e de outras “ias” que tais. Pelo da Democracia, rumamos à inclusão e igualdade: os mesmos direitos para os mesmos deveres.


