Smartphone: proibir ou consentir?

O Agrupamento de Escolas da Sé, na Guarda, vai proibir os telemóveis aos alunos do 1º, 2º e 3º ciclos a partir de 22 de abril, no recomeço do ano letivo.
Com esta medida pretende-se que os jovens estejam «menos dependentes dos telemóveis, sobretudo nos intervalos». O diretor da escola da Sé considera que quem entra no edifício «repara que os alunos passam grande parte do intervalo e hora de almoço agarrados ao telemóvel e que não convivem uns com os outros, não conversam, não brincam, não jogam à bola», partindo do pressuposto errado de que há 20 ou 30 anos estavam todos muito felizes a conviver e a brincar. Não estavam…
Como escreveu João Miguel Tavares no “Público”, «o smartphone cruzado com as redes sociais é um bicho dificílimo de domar, cujo impacto ainda não compreendemos em toda a sua extensão». Suponho que ninguém tem dúvidas de que o telemóvel está tão entranhado nas nossas vidas que a sua gestão é um pesadelo: «é através dele que comunicamos, socializamos, aprendemos, descansamos, pagamos, nos organizamos, nos divertimos. Os telemóveis são horríveis porque afetam a autoestima dos nossos filhos – e são incríveis porque permitem saber onde eles estão quando saem de casa».
Na história encontramos muitos momentos de suposta perigosidade e muitas influências “aterradoras” sobre as crianças – as histórias do lobo mau… E com o progresso passaram a ser ainda mais as formas de pânico que, diz-se, fazem mal à saúde psíquica e alteram a forma de vida dos jovens. Hoje são os telemóveis que fazem “muito mal”, nos anos 50 eram as revistas de banda desenhada, com as suas histórias de horror ou ficção que mudavam os comportamentos das crianças, e, por isso, foram acusadas de corromper a juventude. «Houve audiências no Congresso, novas leis, perseguições a autores e editores, e até fogueiras com revistas a arder». Então, concluiu-se que a juventude dos anos 50 estava perdida por causa da BD. Nos anos 60, 70 e 80 foi a televisão (ainda hoje há quem defenda que as crianças não podem ver TV porque lhes «faz muito mal»). As crianças dos anos 80 e 90 foram afetadas pelos videojogos. As dos anos 2000 foram moldadas pelo telemóvel. A dos anos 2010 foram destruídas pelas redes sociais. «Há aqui um padrão bem definido: a juventude está sempre perdida, até ao dia em que cresce e tem filhos, que por sua vez estão perdidos, e assim sucessivamente».
Percebe-se a intenção e a vontade de fazer “alguma coisa” para mudar o panorama. Um pouco por todo o lado, as recomendações ou mesmo proibições de utilização de telemóveis tem ganho adeptos e ninguém parece ver na medida uma atitude autoritária da parte do sistema educativo. Esse é o caminho mais fácil para tentar relativizar o assunto, mas, como sabemos, o fruto proibido ainda será mais apetecido… Tem de haver regras de utilização e uma política restritiva na utilização de smartphones na escola, mas a proibição é um caminho errado. Em vez de educação, bom senso e equilíbrio perante cada uma das “invasões” que influenciam comportamentos, reage-se ao desconhecido com regras interditivas, que por vezes têm um resultado contrário ao pretendido.
Entretanto, ao mesmo tempo que a digitalização global avança, e o smartphone é um recurso didático e pedagógico, os arautos da ordem querem parar o vento com as mãos.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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