Vulcanizar o trivial

Escrito por Diogo Cabrita

Hoje, a interpretação de um gesto pode gerar um tornado ideológico. Realmente há uma busca pela hipérbole do mínimo, pela vulcanização do trivial. A simplicidade veio substituir a eloquência, apagar a importância da experiência. Assim, construímos interpretações maléficas da realidade por falta de ponderação analítica e ausência de pudor com as consequências. Há uma força ideológica na tentativa de submissão do pensamento livre. Não se coibiram alguns de levar ao Parlamento uma lei de silêncio. Aqueles, que lutaram preteritamente pela liberdade, encontram na mordaça um meio de impor a sua opinião. Subjugar pela quantidade de palavras, ou de ruídos, é uma técnica de destruir o contraditório. Outra forma é sepultar o argumento numa montanha de outros assuntos. Há inúmeras técnicas de converter um diálogo numa ladainha ou numa berraria. O povo vai-se fartando disto e mudando de canal, até que não regressa à opinião ou ao noticiário. O povo envaidecido com a transversalidade da plebe na rede social, onde todos podem verter suas verdades e infâmias, adora vir à lide das touradas linguísticas. Entre patadas, farpas e multitudes de gestos vaidosos, a rede social é agora um telejornal interativo. Tentaram alguns regular a criatividade interpretativa da ignorância, mas isso, meus caros, é impossível, e veio para ficar.

Sobre o autor

Diogo Cabrita

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