Tema 1 – Um amigo, agora com uma cria de humano em casa, mostrou-se surpreendido pela marotice de algumas canções infantis portuguesas. Lembrei a tradição jocosa da música popular. Os trovadores franceses trouxeram os poemas de amor da Provença e os portugueses medievais pegaram naquilo e inventaram as cantigas de escárnio e mal-dizer – a que as almas sensíveis de hoje chamariam “canções de ódio”. No fundo, Quim Barreiros está para os Rolling Stones como Afonso Anes de Cotom estava para a Canção de Rolando.
(Sim, estimado leitor, o trocadilho de “rolling” com “rolando” é propositado. Obrigado por ter reparado. Julgo que isto mereceria uma citação no “Ípsilon”, se lá soubessem quem é Quim Barreiros. No “Jornal de Letras” é que não seria possível, porque não devem saber quem são os Rolling Stones).
Tema 2 – Deputados do Chega fizeram festa de bombo e corneta com um truque muito giro: dizer nomes estrangeiros que compõem uma turma do ensino secundário. O que para o Chega é um vídeo tiktokeiro, para mim é terça e quarta-feira. Agora que captei a atenção e o sobrolho levantado de patriotas que querem ver a estrangeirada para lá de Bagdad, explico: durante o ano lectivo que agora termina, tive duas disciplinas exclusivamente compostas por alunos estrangeiros, de Armen a Zelda, de Espanha ao Uzbequistão. A universidade fica mais interessante, eu aprendo coisas sobre Trieste e Samarcanda, e os alunos fazem amigos do mundo inteiro. E além das aulas de língua portuguesa, oferecemos aos alunos internacionais uma disciplina de introdução à sociedade portuguesa. Em inglês. Pronto, já podem voltar para o tiktok.
Tema 3 – Escrevi, por convite, um capítulo sobre censura na comédia para um livro sobre o fenómeno conhecido por “wokismo” junto daqueles que nunca o apreciaram. Contrariamente, os “wokistas” que orgulhosamente se diziam “woke” há 10 anos agora garantem que o “wokismo” nunca existiu e que é estúpido usar essa designação. Para simplificar, o “wokismo” é um progressismo identitário defendido por anti-capitalistas, a partir dos MacBooks em cafés da “Starbucks”, e revolucionários, que nunca farão a revolução em África ou na América do Sul, porque têm de ir a casa dos pais no fim-de-semana.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


