O Davide chamou-me a atenção para uma realidade que me escapava. Somos os primeiros no mundo a ter que assinalar que “não sou um robot” em correspondência informática. É um semáforo avariado!
Plantamos painéis solares em terrenos férteis e permitimos, na deriva da sustentabilidade, construir coisas que não se reciclam, objetos que impedem a biodiversidade, estruturas que ocupam terrenos de onde podia brotar sustento. Os semáforos ao contrário?
Neste processo de avarias têm de acontecer acidentes, brigas de rua, insultos frequentes. Os construtores de discursos com objetivo de negócio, como os discursos explicativos da arte “inconsumível”, como as explicações de fármacos para doenças que não se manifestam, como a produção de anúncios que amedrontam para condicionar necessidades, são outros semáforos em livre arbítrio.
Há uma incapacidade crítica em percecionar o conjunto de subtilezas que derivam da ideologia e se convertem numa comédia burlesca. Uma candidata gabava-se de ter falado com a comunidade LGBGTQIAPN+ Esta é a demonstração que as letras já não chegam para a inclusão discursiva. Um abecedário de legitimações para a importância do eu e a dificuldade com a frustração. O mínimo dos indivíduos exige o máximo do espaço em igualdade com todos. Posso parar o trânsito porque tenho de atender o telemóvel. Posso colocar altifalantes na conversa porque todos podem saber que estou a falar. Posso! Porque posso! Semáforo doente.
Saidiya Hartman escreveu, a propósito da sua polémica criatividade na interpretação da história, que libertando amarras lógicas vamos rumo à imensidão do especulativo e, então, nada resiste à fixidez e à norma. Estamos completamente de acordo, mas ressalvar que quando não houver normas nem preconceitos, a sociedade é um lugar inóspito e incontrolável, o trânsito torna-se caótico, o urbanismo cresce anárquico, as conversas são uma imensidão de monólogos.


