Palavras gastas

PROJETO. É das palavras que se ouve mais no dia a dia das profissões, mas a certo ponto ouvimo-la e já não sabemos o que ela quer dizer. Nas instituições qualquer coisa que queira parecer mais que uma “atividade” e tornar-se credível, autointitula-se projeto, mesmo que ele se limite a umas ideias copiadas da Internet sem sequer se terem lido. Na política, é um chavão mais frequente nas cerimónias em que se quer convencer de que qualquer coisa é mais do que “uma coisinha pouca”. A certo ponto a palavra, de tão banal, começa a irritar e começamos a substituí-la por “programa”, que entretanto ganhou força englobadora.
EVENTO. Disputa a primazia com a palavra “projeto”, mas também já teve dias melhores. O evento, anglicismo que, no entanto, já aparecia no português no séc. XVII com Francisco Manuel de Melo, reentrou em força no vocabulário da programação de atividades pelas organizações, nomeadamente culturais e recreativas. A palavra anda hoje depreciada pelo facto de induzir a certa atomização da atividade em causa, quando, por exemplo na ação cultural, se valoriza a integração, o “projeto” na sua radicalidade, ou uma constelação de atividades.
TRADIÇÃO. Dá graça ouvir nos noticiários falar da “tradição que já dura há 10 anos”. Qualquer festa de bairro ou terra pequena arranja uma celebração que rapidamente, em poucos anos, se transforma nos telejornais em “tradição”, seja de bonecas de plástico ou de copinhos de chocolate com ginja. A “tradição”, que aparece no dicionário como a afirmação de geração em geração de um fenómeno peculiar e regionalmente situado, é afinal tão forte e “situado” que acabamos por descobrir o mesmo fenómeno repetido por n lugares do nosso Portugalinho. A palavra já não significa nada, mas a intenção é boa.
ELES. Não há pachorra para os diálogos de café ou de Facebook com os adversários dos políticos encartados (quase todos nós) a referir-se aos políticos chamando-os pelo pronome “eles”. É como a bancada a bater no árbitro e a apontar-lhe a metade das falhas que não reconhecemos a nós próprios. É a incapacidade de descobrir que do outro lado, no campo de futebol ou na bancada da assembleia, está um espelho onde não conseguimos ver-nos. Mas estamos lá. As instituições políticas ou públicas e as coletividades são aquilo que a sociedade deixa (quer) que sejam. Eles somos nós.
EXIGIR. Nas greves exige-se, nas manifestações exige-se, nas moções exige-se, nas assembleias exige-se. Agora até nas petições (que são documentos de “pedido” formal, baseado na lei) a palavra “exigir” aparece como palavra central. Como se pedir em nome da lei não fosse suficiente e fosse necessário apertar tanto a quem se pede que a palavra “pedido” e a força do direito não chegam. Por outro lado, de tão repetida nas notícias de greves, a “exigência” já não tem a carga forte que dela se espera.
TRABALHADORES. É palavra pouco em voga hoje, substituída por “profissional” ou às vezes por “colaborador”. Aparece sobretudo no jargão político numa perspetiva de defesa do valor do trabalho contra o capital. Outras vezes a palavra não conjuga bem com aqueles que supõem ser possível ter-se um emprego sem trabalhar. Em época em que nos prometem para breve o trabalho feito por robôs, o ensino feito pelos computadores, as tarefas difíceis comandadas pela inteligência artificial, não admira que ser-se um “trabalhador” não seja um elogio para ninguém. É preferível ganhar-se a vida. Sem trabalhar necessariamente.
MEDO. Poucos confessam ter medo. Alguns confessam receio. Quando se quer exagerar temos terror. E, no entanto, é o medo não-dito que sobressai hoje, todos os dias. O medo do futuro é o que dá mais nas vistas. Sem se chamar assim, adota nomes como “coletes amarelos”, “indignados”, “piquetes de greve”. São grupos de medo que vivem do pequeno ou grande terror, do infligir do medo àqueles que se contentam, não contestam as regras ou aceitam conversar. Sem “querer”, os franceses põem o colete amarelo à vista nos carros para não serem molestados pelos piquetes. As elites pensantes e a maioria deixam o fenómeno sob um manto de silêncio, confiantes que, depois das montras partidas e dos carros ardidos, ainda há de sobrar qualquer coisa para os que ficam a olhar. De um lado o terror, do outro lado a cobardia. Tudo medo. Os grupos que querem “dar o salto” não têm paciência nem esperança nos processos democráticos: organizar-se legalmente, esperar, conversar, aceitar o possível. A democracia está condenada aos movimentos de rua, às caras tapadas e ao terror dos carros a arder. Ganha quem meter mais medo.
SEGREDO. As anedotas dizem que esta palavra durou poucos minutos… até à criação de Eva a partir da costela de Adão. Está mesmo gasta, o raio da palavra. Tanto que ninguém a reconhece. Os procuradores divulgam os segredos cá para fora para ajudar a acusar, os media estão todos à porta à espera de uma sobra para eles, umas imagens, umas gravações, um depoimento. Na verdade, quando alguém nos pede segredo, sabemos logo que, se esse alguém o quisesse manter secreto, não no-lo teria dito. Por isso, a quem vamos contar a seguir?

Sobre o autor

Joaquim Igreja

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