Os implantes amanhã

Escrito por Diogo Cabrita

O mínimo dos indivíduos exige o máximo do espaço em igualdade com todos. Posso parar o trânsito porque tenho de atender o telemóvel. Posso colocar altifalantes na conversa porque todos podem saber que estou a falar. A ditadura do eu está na rede social, nas páginas pessoais, na exposição do Instagram. Eu sou uma marca. Os outros contabilizam os que me seguem e isso dá valor, constrói importância. Esta gente é imodesta, é sobretudo convencida e carregada de afirmações. A inteligência artificial vai ajudar a parecerem melhores. A introdução de dispositivos que aquecem o cérebro, mas simultaneamente aportam informação vai dar facilidade ao discurso. São implantes que fazem o que, para já, se dedilha. Sugerimos o assunto e o implante descarrega saberes, números, experiências. Pode inclusivamente descarregar uma linguagem. Estas pessoas vão todas adoecer cedo porque os implantes provocam calor e as células cerebrais vão sofrer com isso. A propagação da demência terá compensações em novos implantes e circuitos com aplicações adaptativas.
Eu vejo o futuro sempre mais surpreendente, mas o que mais me preocupa é o humano que detesta frustração, o humano que não sabe viver a contrariedade e se armará de tecnologia para ampliar a sua execrável personalidade. Os bons e comedidos, os sábios e os ponderados, os racionais, os treinados em casa a que existe um coletivo respeitável em que se integram, esses, antecipam a experiência da voracidade que está a chegar. Amar e ser amado é uma experiência do humano mais básico. Amar e ser amado inclui respeito e cerimónia. Respeitar os que nos rodeiam obriga a pensar antes de agir. Não tendo, completam-se necessidades como quem come, ou quem vai “descomer”. Sobra nada das horas vividas se não sopra o carinho, se não vem o perfume dos sentimentos.

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Diogo Cabrita

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