Opinião de Rita Bárbara: António Lobo Antunes: há que lê-lo e relê-lo

Escrito por Rita Bárbara

Era por outubro que os leitores assíduos de António Lobo Antunes esperavam. Durante décadas, era quase sempre nesse mês que um novo livro do autor chegava às livrarias. Nos últimos anos, esse outubro não chegou – um silêncio que parecia anunciar discretamente, ou talvez não, a despedida do escritor.
Nascido em Lisboa, era o mais velho de cinco irmãos de uma família da alta burguesia lisboeta. Começou a escrever em criança e desde cedo foi visto como o rebelde da família. Seguiu Medicina para agradar aos pais, profissão que o levou a Angola, onde serviu como alferes miliciano durante a guerra colonial. Os dois anos que passou na guerra seriam um ponto de viragem na sua vida — e, mais tarde, na literatura portuguesa.
Em 1979 são publicados os seus dois primeiros romances, “Memória de Elefante” e os “Cus de Judas”. Este último foi particularmente bem recebido pela crítica e pelo público. Com estas obras, António Lobo Antunes reinventou o romance português e abriu um novo caminho na literatura contemporânea. Num país que, antes e depois do 25 de Abril, parecia querer apagar uma guerra mal-amada, o escritor trouxe-a para o centro da literatura, rompendo com um silêncio coletivo quase obrigatório. O trauma, a memória, o esquecimento e a violência surgem numa escrita nua e crua.
A história de amor e o divórcio da sua primeira companheira, Maria José – a “Zé”, como lhe chamava – atravessam também as suas primeiras obras. Em 2005, por sugestão das filhas, Maria José e Joana Lobo Antunes, o autor autorizou a publicação das cartas que escreveu durante a guerra. “Cartas da Guerra: D’este viver aqui neste papel descripto” foi o título escolhido por ter sido inicialmente pensado para o seu primeiro romance, “Memória de Elefante”.
Cartas íntimas, nunca escritas para publicação, mas apenas para quem as recebia. Como escrevem as suas filhas no prefácio: «Este é o livro do amor dos nossos pais, de onde nascemos e do qual nos orgulhamos. Nascemos de duas pessoas invulgares em tudo, que em parte vos damos a conhecer nestas cartas. O resto é nosso».
A inquietação de Lobo Antunes está presente na sua obra e nas suas entrevistas: ouvi-lo é entrar num mar de pensamentos, incoerências propositadas (ou não) e provocações. Numa entrevista à RTP afirmou que um bom escritor não deve seguir pelo desconhecido, mas escrever sobre o seu universo. Temas como a infância em Benfica, a experiência da guerra colonial e os desencontros amorosos constroem o tom autobiográfico presente em quase toda a sua obra.
Depois da guerra especializou-se em Psiquiatria e exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Nos seus romances e crónicas percebe-se como o médico psiquiatra influencia o escritor. O contacto com os pacientes, as vozes que escutava no consultório e os fragmentos da memória refletem-se numa escrita polifónica, feita de múltiplas vozes que se cruzam e se sobrepõem continuamente.
Esta profissão, que viria a abandonar para se dedicar à escrita, permitiu-lhe conhecer profundamente o ser humano, matéria essencial para construir as suas personagens: solitárias, desiludidas, revoltadas. Personagens que nos são familiares: conhecemo-las desde sempre, andam por aí. Apaixonado e atento observador dos costumes portugueses e dos nossos trejeitos, Lobo Antunes criou figuras que reconhecemos nas ruas, nos cafés, no trabalho, nas nossas famílias. Raramente um escritor nos conheceu tão bem.
Detentor de um sentido de humor refinado e de uma ternura particular, recorda frequentemente a sua infância.
Na crónica “Elogio ao subúrbio” escreve: «Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir mães chamarem ao crepúsculo
—Viiiiiiiiitor
num grito que, partido da rua Ernesto da Silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos».
Benfica ficou eternizado na sua obra. Era também o clube do seu coração. No funeral ecoou o hino do Benfica e foi anunciada ainda em vida a criação da Biblioteca António Lobo Antunes naquela freguesia lisboeta. O subúrbio, que o escritor trouxe para o centro da literatura portuguesa, tornou-se também um dos temas mais originais da sua obra.
E se muitos escritores ousam escrever epopeias, António Lobo Antunes ousou criar uma narrativa anti-épica. Em “As Naus”, constrói um romance satírico onde os Descobrimentos são desconstruídos num Portugal desencantado. Camões, Gil Vicente ou Pedro Álvares Cabral surgem como retornados, desiludidos com o pós 25 de Abril. Cabral procura emprego e vive num quarto miserável com outras famílias. D. Sebastião é um jovem toxicodependente, que representa a decadência de um país e não a esperança. É uma provocação genial: a desconstrução de um mito.
Com a sua morte, as livrarias voltam a encher-se dos seus romances e do seu rosto. É urgente lê-lo nestes tempos a que já podemos voltar a chamar o tempo da guerra. As suas personagens irão – iremos – continuar por aí, nos cafés, nas ruas, a sobreviver e às vezes viver. A melhor forma de o recordar é lê-lo e relê-lo.
A editora Dom Quixote anunciou a publicação em abril, de poemas inéditos do autor. Ele próprio confessava: «Pensava que uma das poucas qualidades que tinha era a ausência de inveja. Não é verdade. Invejo os poetas»… A sua prosa está cheia de poesia…
Há um antes e um depois de António Lobo Antunes na literatura. Com ele desaparece um estilo literário único, o de um escritor rebelde e de uma literatura também ela rebelde. No entanto, como o próprio dizia: «É muito curioso, os nossos mortos continuam a mudar dentro de nós. Continuam a dialogar e a inquirir-nos».
É precisamente o que acontece quando o lemos pela primeira vez, quando o relemos ou quando o ouvimos. A sua obra permanece viva, inquieta, rude e sensível, em constante diálogo e sempre a interrogar-nos.
Há que lê-lo e relê-lo.

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Rita Bárbara

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