Os partidos políticos ditos tradicionais queixam-se da perda de eleitorado, da volatilidade do voto e do crescimento de forças emergentes. Falam de populismo, de radicalização, de desinformação, mas raramente se questionam porque é que estão a perder os seus próprios militantes e simpatizantes.
O problema não começa nas campanhas, começa precisamente quando elas terminam!
Em período eleitoral, os militantes são mobilizados, valorizados, chamados a reuniões, a ações de rua, a debates, a sessões de esclarecimento. São essenciais. São a máquina, a alma e o rosto do partido no território. Mas terminado o ciclo eleitoral, instala-se o silêncio. A energia esvazia-se. As estruturas fecham-se sobre si próprias e muitos daqueles que deram tempo, esforço e credibilidade sentem-se, simplesmente, descartáveis.
Este é um padrão que se repete e em vez de consolidarem a base de apoio, preferem cristalizar-se em jogos internos, disputas de poder local, rearranjos de lugares e equilíbrios de facções. A política deixa de ser mobilização social para se tornar gestão interna de interesses.
Mas há algo ainda mais preocupante.
Quando os resultados não são os desejados, muitos aparelhos partidários revelam uma notória incapacidade de reconhecer os seus próprios erros estratégicos. Em vez de promoverem uma análise séria e humilde sobre falhas de liderança, comunicação ou posicionamento político, preferem deslocar a responsabilidade para a base. Militantes dedicados, que estiveram no terreno, passam rapidamente de ativos valiosos a suspeitos internos, sendo tratados como elementos desleais ou fatores de perturbação quando os resultados não agradam às direções. É um erro gravíssimo.
Um partido que culpa os seus militantes pelo insucesso eleitoral está, na verdade, a admitir que falhou na sua direção política. A liderança existe precisamente para orientar, inspirar e estruturar. Quando isso não acontece, não é a base que deve ser sacrificada para preservar o topo.
A ausência de introspeção enfraquece ainda mais a confiança interna. Militantes que são desvalorizados em tempo normal e responsabilizados em tempo de derrota acabam por procurar outros espaços onde sintam reconhecimento e influência real. Não é apenas uma questão ideológica, é uma questão de respeito político.
A perda de votantes para novas forças não decorre apenas de uma mudança no eleitorado, resulta também de uma desconexão progressiva entre os partidos tradicionais e a sua base orgânica. Enquanto uns se fecham em lógicas internas, outros falam diretamente às pessoas, constroem comunidades políticas permanentes e cultivam uma presença contínua.
A política não pode ser episódica, não devendo viver apenas de ciclos eleitorais. Um partido que só ativa os seus militantes quando precisa deles e os ignora quando já não são essenciais está a corroer a sua própria estrutura.
Se o sistema partidário quer recuperar estabilidade e relevância, precisa de recuperar humildade. Isso implica reconhecer erros, ouvir críticas internas sem as interpretar como traição e valorizar quem está no terreno não apenas como instrumento, mas como parte integrante do projeto político.
No fim, a política é feita de ideias. Mas é sustentada por pessoas. E as pessoas não permanecem onde não são respeitadas nem se mobilizam apenas quando são chamadas a colar cartazes.
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos


