Há datas que o país decora e outras que o país compreende. O 25 de Abril pertence à primeira categoria. O 25 de Novembro, muitas vezes, permanece na segunda. Talvez porque custa assumir que a democracia portuguesa não nasceu pronta, teve de ser afinada, testada, pressionada e finalmente, consolidada.
Se quisermos olhar para o 25 de Novembro com um olhar inovador, vale a pena usar uma expressão que Portugal só viria a conhecer décadas depois. Foi o primeiro “stress test” institucional da República. Uma prova de resistência, quase tão importante quanto a revolução que lhe antecedeu, para perceber se as suas estruturas eram capazes de aguentar um choque extremo sem colapsar.
O que esteve em causa não foi apenas um confronto político ou militar. Foi um exame profundo à capacidade do país para tomar decisões sob incerteza, gerir divergências internas e preservar o essencial, designadamente o direito de todos participarem no futuro. E essa é talvez a grande lição esquecida do 25 de Novembro, provando que a democracia se consolidou porque foi capaz de absorver o conflito sem se destruir.
Hoje, quando olhamos para a polarização digital, para as redes sociais que funcionam como megafones de indignação instantânea, ou para a velocidade com que rumores se tornam “verdades” partilhadas, vale a pena perguntar se sobreviveríamos hoje a um 25 de Novembro digital.
Não há tanques nas ruas, mas há algoritmos nas nossas mãos. Não há quartéis divididos, mas há bolhas de opinião que não se cruzam. E se em 1975 a democracia foi ameaçada pelas armas, em 2025 pode ser minada pela desinformação… silenciosa, constante e quase invisível!
E se naquele Novembro tudo podia depender de um telefonema entre militares, hoje tudo pode depender de um vídeo de 10 segundos, editado, sacado de contexto e partilhado milhões de vezes.
O 25 de Novembro lembra-nos que a democracia não vive da unanimidade, mas da capacidade de convivência entre diferenças. Em 1975 isso significou evitar extremos ideológicos. Em 2025 significa evitar extremos comportamentais como o fanatismo, a radicalização digital, o autismo ideológico e até a incapacidade de ouvir e pensar logicamente.
E é aqui que o 25 de Novembro ganha uma nova atualidade. Aquilo que salvou a democracia há quase meio século foi a capacidade de manter a cabeça fria quando o país parecia inclinar-se perigosamente para os extremos. O que pode salvá-la hoje é outra coisa. É a capacidade de resistir à tentação de transformar cada divergência numa guerra cultural e cada opinião diferente num inimigo público.
Pelo meio, há uma herança portuguesa que merece ser resgatada e refiro-me concretamente ao pragmatismo. Naquele novembro tenso, Portugal escolheu não o maximalismo, mas o meio-termo. Não a ruptura, mas a continuidade. Não a vitória absoluta, mas o compromisso. Esse equilíbrio, que tantas vezes nos dizem que é fraqueza, foi precisamente o que salvou o país.
Por isso, quando hoje falamos do 25 de Novembro, não estamos a discutir passado, estamos sim a discutir o presente. A democracia portuguesa passou o seu primeiro grande teste há 50 anos. A pergunta que fica é simples: está preparada para o próximo?
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos


