Não defendo o apagamento do 25 de novembro da memória histórica, pelo contrário, acredito na sua discussão crítica, plural e aberta, em escolas, universidades, museus, centros culturais e no debate político democrático. Mas defender o estudo e reflexão não é o mesmo que defender comemorações oficiais. Estas últimas carregam um valor simbólico que hoje não corresponde a um entendimento comum da sociedade portuguesa.
Sou abertamente contra as comemorações oficiais do 25 de novembro porque considero que esse ato político e militar permanece profundamente controverso e longe de reunir o consenso histórico, social e cultural necessário para ser celebrado pelo Estado como símbolo unificador. Ao contrário do 25 de Abril, que abriu caminho à Liberdade, ao fim da ditadura e ao início de um processo democrático, o 25 de novembro constitui um momento disputado da nossa história recente, cuja interpretação continua dependente de visões ideológicas e leituras muito divergentes.
Em primeiro lugar, a narrativa oficial tende a apresentar o 25 de novembro como o episódio que «salvou a democracia», ignorando que muitos portugueses e historiadores o entendem como um travão a transformações sociais profundas que estavam em curso, nomeadamente nas áreas da justiça social, do controlo democrático da economia e do protagonismo dos trabalhadores. A celebração oficial cristaliza uma versão parcial dos acontecimentos, ocultando o pluralismo de interpretações legítimas que fazem parte de uma democracia madura.
Além disso, a institucionalização destas comemorações favorece um alinhamento político-ideológico do Estado com apenas um dos lados desse confronto histórico, promovendo uma memória seletiva que apaga o papel de milhares de cidadãos que acreditavam num aprofundamento da democracia económica e social. Um regime verdadeiramente democrático não deve transformar em comemoração nacional um evento que ainda hoje divide a sociedade portuguesa e que reabre feridas históricas, muitas delas nunca plenamente debatidas no espaço público.
Outro argumento prende-se com o risco de se usarem estas comemorações como instrumento de disputa política contemporânea, reforçando leituras que visam deslegitimar movimentos sociais e qualquer proposta transformadora para o país, rotulando automaticamente como antidemocrático tudo o que questione o modelo económico e institucional estabelecido após 1976. Em vez de promover diálogo, o Estado pode contribuir para a polarização e para uma visão empobrecida da nossa história coletiva.
Em suma, sou contra as comemorações oficiais do 25 de novembro porque o Estado não deve assumir como celebração nacional um acontecimento que não representa unanimidade histórica e que, em vez de fortalecer a democracia, pode contribuir para a sua instrumentalização. É certo que a memória não tem de ser apagada, mas deve ser tratada com responsabilidade, debate e complexidade, e não com cerimónias que consagram apenas uma das versões possíveis do passado.
* Professor


