Escrevo na manhã de 25 de Novembro, sem saber por isso se o dia vai acabar com uma intentona militar lá para o fim da tarde, ou se o Parlamento se vai amotinar contra a democracia burguesa que o PCP recusava há precisamente 50 anos. Interessa-me pouco este debate esparvoado “25 de Abril sempre – 25 de Novembro nunca mais”, mas parece-me que as fontes da época são suficientes para entender que algumas forças vivas da nação de 1975 estariam demasiado fascinadas com o marxismo-leninismo, que sempre foi mais leninista do que marxista, porque, como diz um bom amigo marxista, os livros de Lenine são mais fininhos do que os de Marx.
Depois de ler vários livros sobre a União Soviética, de conhecer muitas pessoas que viveram na União Soviética e de ter vivido num país que esteve 50 anos ocupado pela União Soviética, posso dizer isto: seja o que for que tenha acontecido a 25 de Novembro de 1975 em Portugal, parece-me que não termos seguido o caminho da União Soviética foi uma boa escolha. Ou um bom acaso, que em Portugal o destino é mais vezes marcado pela fortuna do que pelo discernimento.
A propósito deste debate sobre dias 25, alguém na televisão dizia que «os portugueses sabem bem distinguir o 25 de Abril do 25 de Novembro». Pois sabem, o 25 da Primavera é feriado, o 25 do Outono não é. Os senhores deputados talvez não se lembrem, mas o povo ainda sabe distinguir os dias em que não precisa de ir trabalhar.
O outro assunto da semana, a que o Observatório não pode escapar, foi a dupla performance acrobática do (“sinto-me”) saudita Cristiano Ronaldo. Primeiro, em Washington, fazendo companhia ao príncipe feliz num jantar que deu brado, depois em Riade, fazendo companhia ao príncipe Félix num pontapé de bicicleta que deu golo.
Perguntará o leitor que semelhança terão estas duas piruetas, e pergunta bem, mesmo interrompendo o cronista. No campo verde, foi a noningentésima quinquagésima quarta vez que Cristiano Ronaldo fez explodir de alegria os adeptos do clube onde joga, na Casa Branca foi igualmente perto da milésima vez que fez explodir de raiva os adeptos da democracia onde não vive.
A culpa desta raiva, no entanto, não é de Cristiano Ronaldo. É de quem espera de um jogador de futebol atitudes de um professor de Ciência Política – e mesmo entre estes há quem aceitasse alegremente ser convidado de Bin Salman e Donald Trump. Por mim, os jogadores podem tratar a bola com a cabeça e a política com os pés que continuarão a ter o meu apreço futebolístico. Só lhes peço que não se ponham a fazer 25 de Abris e 25 de Novembros.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


