A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, não é apenas um episódio geopolítico moderno. É o culminar de séculos de história partilhada, marcada por alianças, dominações e resistências. Dois povos eslavos, ligados por laços linguísticos e culturais, mas com trajetórias políticas distintas e, por vezes, opostas.
Compreender esta guerra exige uma leitura crítica da história, sem ceder a narrativas simplificadoras. Não se trata apenas de uma provocação ocidental nem de imperialismo russo linear. A realidade é mais complexa.
Raízes históricas: de Kiev a Moscovo
A história política da Ucrânia remonta à Rus’ de Kiev, fundada no século IX. Kiev, já existente desde cerca de 482 d.C., tornou-se capital em 882,
sendo o centro político e espiritual dos eslavos orientais. Este Estado medieval lançou as bases da cultura eslava oriental, adotou o cristianismo ortodoxo em 988 e desenvolveu identidade política própria.
Moscovo só seria fundada em 1147. A ascensão do Principado de Moscovo, que viria a ser Império Russo, ocorreu após a queda de Kiev sob domínio mongol, e construiu-se sob a alegação de herdar a tradição da Rus’ de Kiev – herança sobretudo simbólica.
A Ucrânia passou por influências diversas: polaca, lituana, otomana, austríaca. Em 1654, parte da Ucrânia oriental integrou-se na esfera do czarismo russo através do Tratado de Pereyaslav, num contexto de conflito. A união foi rapidamente usada para restringir a autonomia cossaca e impor controlo imperial.
Séculos de dominação e resistência
Nos séculos XVIII e XIX, o Império Russo intensificou a russificação da
Ucrânia: reprimiu o uso da língua, o nacionalismo cultural e apagou traços de autonomia. Ainda assim, surgiu um renascimento literário e cultural, com figuras como Taras Shevchenko a reforçarem a consciência nacional ucraniana.
O século XX trouxe esperanças e tragédias. Após o colapso do Império Russo, a Ucrânia tentou proclamar independência em 1917, mas acabou integrada na União Soviética. A repressão soviética culminou no Holodomor, a grande fome de 1932-33 provocada por Estaline, que matou milhões de ucranianos e é hoje considerado genocídio por vários países.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi palco de ocupações sucessivas por nazis e soviéticos. Após 1945, permaneceu sob controlo soviético até à independência em 1991.
Independência contestada
A independência da Ucrânia foi proclamada a 24 de Agosto de 1991 e
confirmada por referendo com mais de 90% de apoio, incluindo nas regiões russófonas. Em troca do desarmamento nuclear, a sua soberania foi garantida por Rússia, EUA e Reino Unido (Memorando de Budapeste, 1994).
Nos anos seguintes, a Ucrânia oscilou entre governos pró-Rússia e pró-Ocidente, mas a tendência europeísta cresceu, sobretudo entre os jovens e nas cidades.
Em 2013, a recusa do presidente Yanukovych em assinar um acordo com a UE gerou os protestos do Euromaidan, cuja repressão violenta levou à sua queda em 2014, facto visto por Moscovo como golpe apoiado pelo Ocidente.
Anexação da Crimeia e guerra no Donbass
Em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, alegando proteger a população
russófona. Rebeliões em Donetsk e Luhansk, apoiadas por forças russas, deram início a um conflito armado no leste da Ucrânia. Os Acordos de Minsk tentaram instaurar um cessar-fogo, mas nunca foram plenamente cumpridos.
Neste contexto, a identidade nacional ucraniana consolidou-se. Para Moscovo, a aproximação europeia da Ucrânia tornou-se uma ameaça estratégica, não militar, mas simbólica: um país eslavo, ortodoxo e ex-soviético a escolher livremente a democracia.
Invasão de 2022
A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia lançou uma invasão total da Ucrânia, justificando-a com argumentos de autodefesa e combate ao nazismo, amplamente refutados por observadores internacionais.
O conflito destruiu milhares de vidas e provocou a maior crise de refugiados na Europa em décadas. O Ocidente respondeu com apoio militar, sanções à Rússia e reforço da NATO. O conflito ultrapassou o plano bilateral, tornando-se um ponto de tensão global.
Apesar das expectativas russas de uma vitória rápida, a resistência ucraniana tem sido firme. Quase quatro anos depois, a guerra continua, com frentes estáticas e elevado custo humano.
Interpretações políticas e leitura histórica
O debate sobre as causas da guerra é polarizado. Analistas como John
Mearsheimer culpam o Ocidente pela expansão da NATO. Outros apontam o autoritarismo russo como motor do conflito. Em Portugal, José Milhazes tem sido uma voz crítica da invasão, sublinhando o autoritarismo de Putin e o direito à soberania ucraniana.
Já Domingos Lopes, no livro “Ucrânia e Rússia – Violência sem Tréguas”, defende uma leitura pró-russa influenciada por tradições comunistas, desvalorizando a vontade do povo ucraniano.
Por contraste, “As Portas da Europa”, de Serhii Plokhy, evidencia com
rigor que a Ucrânia é um sujeito histórico com identidade própria, não
uma invenção ocidental nem uma extensão natural da Rússia.
História como ferramenta
A história ensina-nos que os conflitos não nascem do nada. São o resultado de memórias, disputas e vontades coletivas. A Ucrânia procura afirmar livremente o seu futuro, contra uma potência que recorre a uma história manipulada para negar esse direito. Se há uma lição desta guerra, é que a história pode ser usada tanto para dominar como para libertar. A paz, ainda que distante, dependerá do respeito mútuo e do reconhecimento da soberania de cada nação.
* Historiador/ técnico de Património


