Se a imagem da sala oval com o presidente dos Estados Unidos da América imerso em mãos de evangelistas que se tocam a rezar não vos alertar para os perigos, reais e perversos, de qualquer teocracia religiosa, incluindo a do Irão, quero acreditar que será mais por andardes distraídos do que por crerdes que não será dali que maior mal virá ao mundo. De qualquer maneira, nenhuma das duas hipóteses vos isentará de responsabilidades pelas respetivas consequências e ambas, se ainda não o são, deveriam passar a ser crime punível por Lei. Tal como o são os atropelamentos no trânsito e – embora, às vezes, nos esqueçamos disso – os desleixos, conjugais, parentais, patronais, políticos e profissionais.
Da mesma maneira que não passará pela cabeça de ninguém dar uma palmadinha de compreensão e tolerância nas costas do condutor que alega distracção, ou “ter feito mal as contas”, ao ferir ou mesmo matar alguém, ser condescendente com o polícia que dispara sobre alguém sem razão ou tolerar que o médico não avalie corretamente um doente por não estar nos seus melhores dias, também não nos deve dar para o fazer com os rezadores do dia ou com os cônjuges, pais, patrões, políticos ou profissionais a tender mais para o arrivismo do que que para o compromisso sério com os princípios por que se deve reger a vida em sociedade.
Ora, aqui chegados, só quem não entender a escola e, porque a dita não se reduz às próprias paredes, a ação dos seus professores, como a guardiã e veículo de transmissão, às gerações mais novas, desses princípios é que tolerará que a mesma deixe que educação das nossas crianças e jovens possa ser permeada pela ação de “influenciadores” nas redes sociais digitais a que, até agora, qualquer deles tem estado exposto. Por mais discussões em que nos enredemos sobre a escola, quando esquecemos o seu principal propósito, o resultado só pode ser um: a ultrapassagem de currículos e professores pelas mensagens, mais ou menos explícitas, mais ou menos ardilosas, das ideologias, mais perniciosas que possamos imaginar, veiculadas por gente muito pouco recomendável através das tais redes a que só agora se tenta dificultar o acesso dos mais jovens.
Logo, fosse por distracção dos respetivos diretores e professores, ou simplesmente por pensarem que daí não viria mais mal ao mundo, perante a extrema gravidade do que sucedeu – validar e legitimar, através da presença de sinistras personagens em espaço escolar, a disseminação de narrativas precoces das mais abjetas ideologias – nenhuma das duas hipóteses os isentará de responsabilidades pelas respetivas consequências. Aliás, se esta aberração normativa de ter que elucidar e orientar estas alminhas com directivas ministeriais, sobre o que é e não é aceitável que aconteça numa escola, já nos deve deixar preocupados, mais preocupados, ainda, nos deverá deixar o facto de alguns deles, devido a esta nossa mania de não criminalizarmos a distracção e displicência, poderem continuar responsáveis pelas chaves da escola que, aparentemente num momento muito pouco feliz, alguém lhes entregou.


