Até há uns tempos, como já perceberão, se me perguntassem o que é que a cidade espanhola de Tarifa poderia ter em comum com a nossa cidade da Guarda responderia, taxativamente, que nada. Ao contrário do nosso, Tarifa é um município costeiro. São os turistas que lhe dão muito do alento que o sustém. Talvez por isso seja de tal maneira condescendente com eles que nem o pagamento do estacionamento, do automóvel lhes exige. Descobri-o numa manhã enevoada de agosto ao estacionar à frente da porta de um restaurante depois de perguntar a um dos empregados de mesa que, presumo, esperava pelos clientes à porta, se se podia estacionar ali e se era preciso pagar. Respondeu-me que estacionasse onde quisesse, sem precisar pagar o que quer que fosse, porque ali não havia lei. Tarifa era uma cidade sem lei. Lembrei-me logo da nossa António Sérgio, com carros estacionados de um lado e do outro em segunda fila a emperrar o trânsito a qualquer hora e reparei que, afinal, poderia haver qualquer coisa em comum entre os dois municípios, ambos, pelo menos no que ao estacionamento dos automóveis diz respeito, são cidades sem lei. Mas se numa cidade que faz vida do turismo isso até possa ser compreensível, numa cidade como a nossa, em que são os próprios habitantes a incumprir, o mesmo só se poderá compreender à luz de uma coisa que por aqui tem dado em ser cada vez mais frequente: falta de civismo.
Sim, porque é de falta de civismo que se trata, quando dois cidadãos decidem impedir a circulação de todos ao estacionarem paralelamente em segunda fila numa das ruas da cidade que, por levar à central de camionagem, a uma das maiores escolas, ao mercado municipal e ao centro, mais trânsito tem. Não raramente com estacionamentos vagos dois ou três carros atrás ou à frente.
Ora, como quem faz um cesto, faz um cento, quem assim age ao estacionar, assim agirá noutra circunstância qualquer. Porque isto, de desrespeitar os outros, nunca é circunstancial. Depois de muito praticado, torna-se carácter. Ou, mais precisamente, falta dele. Quem nunca se deparou com um chico-esperto destes a tentar passar-lhe à frente numa fila de supermercado, do médico, das finanças ou do restaurante, que atire a primeira pedra. A diferença é que numa dessas, ao contrário de quando estamos trancados num carro, à espera que possamos ultrapassar o que está no meio da via, em que não há olhares ou asneiras que nos valham, lá vamos conseguindo resolver o problema com um olhar de soslaio a que juntamos um palavrão. Involuntariamente parados no trânsito, ou buzinamos, o que não costuma ser muito eficaz, ou, à falta de um santo de um polícia que nos venha salvar, metendo os prevaricadores na ordem com uma multazinha, aguentamos. Tal como há anos o temos feito na António Sérgio, na Virgílio Ferreira, na Dr. Lopo de Carvalho e, ainda que dependendo das horas, por aí fora.


