Termina mais um ano, um ano de particular exigência no que respeita à execução de obras com financiamento aprovado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), cujo horizonte se fecha em agosto de 2026. O país apressa-se, quase em corrida contra o tempo, a cumprir calendários, a rasgar estaleiros, a levantar andaimes. Por todas as cidades florescem sinais do que se anuncia como futuro, equipamentos requalificados, infraestruturas prometidas, uma ideia de modernidade que se quer tangível antes que o prazo se esgote.
Na Guarda, porém, o cenário é mais contido. À exceção das obras da CERCIG, que são muitas, relevantes e foram justamente aprovadas, pouco mais se vê. E ainda bem que estas avançam, pois dotar a cidade de respostas sociais qualificadas é um imperativo moral e civilizacional. São investimentos que fazem a diferença, que cuidam da diferença e que dão densidade humana a um território tantas vezes esquecido.
Fora deste perímetro, porém, impera uma inércia desconcertante. Recorde-se que, a esta data, as intervenções financiadas pelo PRR deveriam já encontrar-se em fase adiantada, quase no remate final, para que em agosto de 2026 possam ser concluídas, certificadas e, finalmente, pagas.
É neste contexto que, com o PRR a aproximar-se do seu termo, o Município da Guarda apresenta agora o Orçamento para 2026. Um documento de números largos, no valor astronómico de 99,4 milhões de euros, sustentado, em larga medida – pasme-se – em obras ainda candidatadas ao próprio PRR. Não em obras concluídas, nem sequer em obras em execução, mas em intenções projetadas sobre um tempo que já pouco existe.
Entre o papel e o terreno vai uma distância que não se mede em milhões, mas em dias, em decisões, em mão de obra, em capacidade real de executar. Um orçamento pode ser um exercício de ambição ou um ato de fé; raramente pode ser ambos sem risco. A Guarda encontra-se agora neste ponto delicado em que se exige clareza: ou estamos perante um milagre acional, capaz de acelerar meses em semanas, ou perante um irrealismo que acabará por se impor com a dureza dos factos.
Em breve, saberemos.
Quando o PRR se esgotar, como inevitável e brevemente se esgotará, ouvir-se-á, com a tranquilidade de quem muda apenas o nome ao dossiê, que ainda há o Portugal 2030. Como se o tempo e o financiamento fossem elásticos, como se os atrasos se redimissem por decreto, como se a próxima sigla pudesse apagar a oportunidade perdida da anterior. Dir-se-á que o PRR não nos servia, que estava mal feito, que o que não avançou antes avançará depois e melhor. E, assim, se deixará passar também o Portugal 2030, embalado pela mesma retórica de expetativa permanente, até que surja outro programa, outro prazo, outra promessa. Entretanto, a cidade continuará à espera de obra feita, de futuro palpável, de decisões que não se limitem a constar no papel. Dizem-nos, por aqui, que “o futuro a Deus pertence”, enquanto que os presidentes dos outros municípios mostram que o futuro pertence aos seus munícipes.


