No dia 7 de março, a SIC Notícias transmitiu, no programa “Reportagem Especial”, um retrato inquietante do abandono de vários centros históricos portugueses, entre eles o da Guarda. As imagens trouxeram a nu um somatório de ruas silenciosas e vazias, portas fechadas que nunca se abrem, edifícios devolutos que acumulam décadas de abandono. Esta paisagem urbana é reveladora de uma assustadora erosão da vontade política e dela não há como fugir. A Guarda está a morrer e os responsáveis políticos – apesar de tantas evidências – não a sabem, sequer, diagnosticar.
A casa, espaço privado e fundamental para a estruturação do espaço público, constitui um dos fundamentos primeiros da vida social. Cada casa representa continuidade, pertença e relação com o território. Quando uma cidade se enche de casas vazias, surge diante de nós um sinal profundo de desagregação comunitária e o futuro fica comprometido.
Grande parte das autarquias habituou-se a gerir o quotidiano imediato, deixando para segundo plano uma reflexão estratégica sobre o futuro urbano. O urbanismo reduziu-se, muitas vezes, a um conjunto de normas administrativas, incapaz de produzir uma visão coerente de cidade. Assim, os centros históricos vão ficando suspensos entre dois tempos. Demasiado antigos para responder às dinâmicas do mercado contemporâneo e demasiado negligenciados para se tornarem prioridade das políticas públicas.
Cada casa abandonada encerra uma história interrompida: um comércio que fechou; uma família que partiu; um processo de herança que nunca se resolveu; um projeto de reabilitação que nunca saiu do domínio intencional.
O último mandato municipal ofereceu episódios que deveriam ter servido de alerta. Um incêndio numa casa devoluta no centro histórico expôs de forma dramática o perigo eminente deste edificado, a tragédia que dele poderá resultar e a dificuldade que existe para uma resposta atempada, sobretudo devido à dificuldade logística em chegar a determinadas ruas. Noutro momento, a derrocada de um imóvel para a via pública confirmou aquilo que muitos já sabiam. Existem edifícios em risco real de colapso, no coração da cidade e muitos deles são da responsabilidade da câmara municipal.
Apesar destes graves sinais, a utilização intensiva da Praça Luís de Camões (Praça Velha) para eventos multiplicou-se. A praça tornou-se palco recorrente de iniciativas de toda a natureza, que requerem estruturas pesadas e operações logísticas complexas. Camiões entram e saem, palcos são montados e desmontados, equipamentos de som ocupam e agridem o espaço público durante dias.
O centro histórico passou a ser utilizado sem qualquer noção da fragilidade deste corpo e sem qualquer avaliação séria das condições do edificado envolvente. Muitos dos edifícios que delimitam a praça apresentam sinais evidentes de degradação e alguns encontram-se em risco de derrocada.
Transformar este espaço num palco permanente de celebração da cidade, ignorando os sinais de deterioração do próprio património que a define é, no mínimo, revelador de falta de noção de segurança pública, de respeito histórico e patrimonial, de estratégia política e urbanística.
Governar uma cidade exige mais do que administrar acontecimentos e promover eventos, exige enfrentar problemas estruturais e assumir responsabilidades difíceis.
Uma cidade revela o seu verdadeiro estado na forma como cuida dos seus lugares, sobretudo dos mais antigos. Quando esses lugares começam a esvaziar-se, a cidade perde parte da sua memória coletiva, da sua identidade e da sua própria continuidade.
Por isso, devemos ser exigentes na hora de escolher os nossos governantes. Há os que servem, que deixam obra e que cuidam e, depois, há os outros.


