Opinião de Daniel Lucas: Torre dos Ferreiros: O compasso da Vida

Escrito por Daniel Lucas

Há duas semanas os Açores vieram à Guarda, os amigos, entenda-se. Já há alguns anos que não vinham. Ou, pelo menos, não com este olhar, para além da amizade que nos une. Como anfitrião, quis mostrar uma Guarda que não apenas acolhe e onde se come bem, mas também uma cidade que é esculpida de pedra e céu, viva prova de que as grandes obras se constroem com equilíbrio, entre o racional e o poético, entre a defesa e o abrigo, entre a terra e a espiritualidade.
Há algo de intemporal ao caminhar até à Torre dos Ferreiros. Erguida no século XIII pela determinação de D. Dinis, o rei que a desenhou, alinhando fronteiras com a ideia de defesa de um reino. Subir à Torre é mais do que uma jornada do tempo. É sentir a cidade a revelar-se a cada passo, a cada metro percorrido. As ruas e praças que se estendem lembram-nos que, embora o passado tenha moldado a sua essência, é o presente que a sustenta. Hoje, a Guarda não é apenas uma cidade antiga, é um lugar onde as pessoas vivem, trabalham e transformam a história a cada dia, com a mesma dedicação e resiliência com que D. Dinis traçava os contornos do reino.
O elevador panorâmico, erguido neste século, pelo amigo JCM, enquadra passado e futuro, convidando-nos a um ritual quase cru e desamparado. Como se cada metro subido fosse um grau de consciência sobre a cidade e o seu propósito. A cada ritmo superado, aproximamo-nos não só da vista deslumbrante, mas da sabedoria antiga que a Torre representa. Como se a cada nível alcançado nos levasse mais perto da visão da força e beleza, que D. Dinis, na sua mestria, procurava imitar.
Ao alcançarmos o topo fomos recebidos por uma paisagem que se revelava num moisaico de detalhes minuciosos, como se a cidade tivesse sido cuidadosamente desenhada por um arquiteto paciente, alinhando precisão e ousadia, visão e perseverança. A paisagem é um convite à contemplação. O vento que sopra lá em cima é carregado de histórias, sussurrando glórias dos tempos passados, enquanto o cheiro da cidade se mistura com a frescura do ar, criando uma sensação de estar suspenso entre o passado e o futuro.
De um lado, a Serra da Estrela ergue-se à distância como uma guardiã, com curvas suaves que contrastam com os seus picos robustos. É impossível não pensar como estas montanhas moldam a terra, também as nossas escolhas moldam o destino. A leste, a Serra de Béjar, em Espanha, surge como uma sombra que questiona: teria sido mais fácil sermos todos um só? Ou a nossa independência é o que nos dá a alma que carregamos, que nos define e nos distingue? Cada montanha parece guardar um segredo e uma resposta, mas murmura-a tão suavemente que apenas o silêncio a entende.
Em baixo, os telhados gastos por um tempo e as ruas geométricas desenham bordados perfeitos, delimitando alguns sonhos, responsabilidades e uma vontade persistente de proteger o que é importante e construir o futuro. A cidade, feita de rigor e contemplação, mantém-se fiel a um plano invisível, como se réguas secretas orientassem os caminhos de quem a percorre cheio de paixões. E, no seu coração, a robusta Sé Catedral ergue-se firme, elo entre o que fomos e o que ainda seremos.
Na descida da Torre levamos mais do que imagens de 360 graus. Fortalecem-se amizades e renova-se o olhar, aquele que vê o mundo em múltiplas camadas. Trago comigo a essência do que é ser-se daqui, seja pela sua raiz ou pelos afetos, com pés firmes na terra e olhar ancorado nos sonhos de se fazer cumprir. É neste equilíbrio entre o compasso do passado e o traço do futuro que desenhamos a nossa própria história.
Ir à Torre dos Ferreiros é permitir-se sentir a cidade, a vila, as aldeias e todos os lugares ao redor. É ver o mundo de um ponto único. Subir, contemplar, inspirar-se. Deixar-se envolver pela vista, pela história e pela magia de um lugar que sabe como tocar a alma de quem o visita.
Como disse o Papa Leão XVI aos jovens, «olhai sobretudo para o alto». Aqui, a visão, é mais que um convite a uma altura física. É um reencontro com o infinito. É uma elevação do olhar. É olhar-nos.

Sobre o autor

Daniel Lucas

Deixe comentário