Entrámos num novo ano com velhos movimentos. Uma parte do mundo continua de pernas para o ar. Intriga. Ganância. Destruição. Guerra. Tudo invade o nosso quotidiano como se fosse o novo normal viver com o coração apertado. Hoje, discutir ideias tornou-se um campo minado, ou se encaixa no rótulo certo ou não se é ouvido. Parece que voltámos ao secundário dos grandiosos anos 90, onde tudo se encaixava em guerrilhas entre Betos, Metálicos, Punks, Grunges, Skaters, Góticos, Alternativos entre outros… mas agora com consequências reais. As guerras já não se travam com birras juvenis, mas com imaturidade bélica capaz de destruir tudo o que é vida e simbólico. A História repete-se, mas desta vez com armas que não deixam margem para grandes recomeços.
No meio deste ruído, a Guarda guarda-nos. E reacendeu-se. Literalmente.
A cidade-natal vestiu-se de luz e, de repente, algo mudou. Foi bom ver adultos e crianças nos pequenos comboios a serpentear entre a “Praça Velha” e o Jardim José de Lemos, a acenar a quem passava, com brilho nos olhos e sorrisos soltos. Os cheiros que nos devolvem memória, com a lenha arder, as pipocas, o algodão doce, a canela… Aromas que nos levam de volta às nossas origens, de divisões gélidas às cozinhas quentes, ao tempo em que o mundo parecia caber inteiro dentro de um gesto simples. A Guarda, nesses dias, não pediu, não pede nada em troca. Apenas limitou-se a abraçar-nos. Só porque sim. E isso diz muito.
O Natal já lá vai e o Ano começou! Talvez seja o melhor momento para recuperar um gesto simples que podia mudar muita coisa: o abraço. Precisamos de abraços.
A força de um abraço é a construção de um puzzle que nos recompõe nos dias de dor, de perda ou até de alegria. No entanto, ainda temos vergonha de abraçar ou de pedir um abraço, como se fosse sinal de enfraquecimento, sobretudo entre homens. Crescemos a ouvir que dureza é virtude, que lágrimas são fraqueza e que ternura é território de mulheres e crianças. Aprendemos a calar emoções, como se o silêncio fosse escudo e a solidão destino.
Mas basta um abraço para desarmar essa mentira. O encontro de dois corpos lembra-nos que não há fraqueza em sentir, há coragem. E que não há vergonha em precisar do outro, há humanidade.
Curiosamente, muitas vezes só deixamos o abraço acontecer quando Baco se mete ao barulho. Quando este aquece o corpo e solta a língua, surgem abraços fáceis, confissões antigas, palavras guardadas. Como se fosse preciso perder o juízo para reencontrar a alma. De madrugada jura-se amizade eterna; no dia seguinte, troca-se um seco “então, ‘tá-se’?” e finge-se que nada aconteceu. É a ressaca dos afetos.
Vivemos num país, num mundo (?) onde o aperto de mão continua a ser o cumprimento oficial e a palmadinha nas costas a versão socialmente aceitável do abraço que não tivemos coragem de dar. É como quem diz: “abraço-te, mas mantenho a distância regulamentar da masculinidade”!
Na infância, os abraços são naturais. Lembro-me nas escolas primárias, os miúdos a correrem uns para os outros sem medos, sem cálculos, sem geometrias. Depois chega a adolescência e tudo enrijece: o corpo, a postura, a alma. Aprende-se, sem ninguém dizer, que abraçar é ceder terreno. Um gesto que expõe, fragiliza, desnuda. Por isso, guardamo-lo para funerais, tragédias ou aquele raro reencontro em que nos esquecemos do que a vida nos ensinou. A verdade é simples: um abraço não diminui ninguém. Não é coisa de fracos. É talvez o gesto mais humano que existe quando sentido.
Sabemos todos, ainda que a medo, que um abraço pode mudar um dia, um destino, uma vida. Dá chão na dor, esperança na perda, sentido à alegria. É nele que a força se multiplica e também nele que nos mostramos vulneráveis. A vulnerabilidade assusta, mas é ela que nos devolve a humanidade. Talvez seja tempo de voltarmos ao lugar simples onde tudo começa. Sem discursos grandes, sem razões elaboradas, sem justificações. Apenas isto: braços abertos.
Abraçar os amigos que sofrem, os vizinhos que perdem, os pais que envelhecem, os filhos que crescem. Abraçar só porque sim, porque a vida partilhada pesa menos e vale mais. Se há gesto capaz de contrariar a violência do mundo, é este. Se há antídoto para o ódio, é este. Se há ponte possível entre povos, culturas e guerras, começa num abraço. Porque no abraço há encontro sem fronteiras.
Talvez seja essa a verdadeira revolução, voltar a relembrar àquele menino a ternura simples. E quem sabe, se aprendermos a abraçar mais, deixaremos finalmente de precisar de guerras para provar força e de álcool para revelar afeto. Talvez, apenas talvez, seja também a chave da paz. Talvez seja isso que a Guarda nos ensina, mesmo sem o dizer. Bom Ano. Com Abraço!


