Opinião de António Godinho Gil: Gort*

1. O sr. Aveiro bateu com a porta. Saber bater com a porta não é para todos. Também é preciso alguma classe. Não vou tão longe que exija uma saída à Houdini. Até porque pode ser complicado desatar alguns nós. Por sua vez, o “ghosting” puro e duro não condiz com o ego do filho da D. Dolores. Que pertence a uma classe muita restrita de figuras publicas: os selfs made man suicidários. Por mim, tudo bem. Não pode é arrastar na sua decadência uma equipa, uma planificação, o enorme talento de uma geração de futebolistas à espera do seu tempo. De modo que uma retirada num jacto privado, em modo narcotraficante de uma república das bananas, caiu-lhe que nem ginjas. Por falar em egos, uma batalha entre um cromo disléxico e um apolo infantilizado é algo digno de se ver. Proença, o ex-dragão de ouro, ainda tentou fazer de Rainha Santa Isabel, distribuindo rosas. Porém, a sua investida foi tão útil como um guarda chuva no deserto. Ora, o sr. Aveiro não gostou de, em Oslo, ter sido posto a aquecer sem entrar. E também não terá gostado da conferência de imprensa de JJ. Por sua vez, este não gostou de ser posto em causa, tal como o foram repetidas vezes os seus antecessores. E fez bem, embora de forma desastrosa. O João Pinto, se pudesse, tinha dado uma valente cabeçada aos dois, como em Seul, pondo fim à discórdia. E pronto. O atleta supremo vai falar, um dia. Se isso contar como golo. Jesus já escolheu a figueira para Judas se pendurar. O ex-dragão de ouro demonstrou ter a competência de uma amiba. A FPF ficou sem a estrela da companhia. A equipa agradece. Sem o eucalipto, o potencial do grupo vai vir à tona. Portugal, à excepção dos indefectíveis, exprime um misto de alívio e, quem diria, gratidão. O mundo assiste, atónito, a esta telenovela mexicana. Do espaço, é possível que se note algum movimento. Mas de uma coisa podemos estar certos: neste “Hamlet” lusitano, algo estava podre no reino da Dinamarca.
2. O bobo é essencial na política. Ernst Jünger, em “Eumeswil”, não quis privar o Condor de ter o seu. Na verdade, é o bobo que resgata o monarca, tirano ou não, da demência de um poder sem freio. O bobo só ocasionalmente depende da boa vontade do soberano. Não o segue como uma sombra, mas como uma candeia. O bobo não deseja, mesmo secretamente, a aniquilação do monarca. É mais um terapeuta privado, que, num role play absurdo, lembra que o poder é irrisório se não for divertido. No fundo, o bobo é uma sub espécie do anarca de Jünger. Mantendo uma relação objectiva com o poder, transfigura-o.
3. Não me interessa por aí além o empenho fanático que muitos colocam nas suas convicções partidárias. Que não são necessariamente convicções políticas, como se sabe, mas expedientes para a construção de uma identidade pobre. Onde não há autonomia, nem autocrítica, nem um plano de acção onde cada um se exponha ao risco e à incerteza, mas também ao deslumbramento e à descoberta. Ninguém quer afrontar os seus demónios, a vertigem caótica do mundo. Preferem agachar-se num limbo que lhes é confortável, aclamar ídolos crendo com isso agigantar-se no altar da esperança quando afinal se diminuem diante de vendilhões de ilusões. Julgam estar mais perto do poder, mas na realidade são simples figurantes na encenação alucinada desse mesmo poder. Como disse, esse processo só me interessa como explicação de fundo. Muito mais importante é verificar a correspondência entre os entusiasmos político-clubísticos e as acções concretas em algumas dessas pessoas, as que se cruzaram no meu caminho. As conclusões são surpreendentes. Os que mais clamam pela solidariedade e justiça social são os primeiros a abandonar o barco quando a coisa não corre de feição; os que apregoam a generosidade tornam-se subitamente parcos dela quando o que dão é seu; os que apontam o dedo à mentira e ao engano não conseguem sequer honrar uma promessa feita no dia anterior. Os que entoam a tolerância são os que revelam mais dificuldade em coexistir com quem pensa e age de modo diferente de si. Na verdade, é com actos que tecemos a nossa vida. No desiderato, útil se torna ter sempre presente que, como diz o povo “Bem prega frei Tomás o que ele próprio não faz”.
4. Dizemos “e tudo se desmoronou”. É verdade. Parece um mistério ao contrário. Começamos pelo fim e vamos colocando à volta os destroços e a poeira, em círculos concêntricos. Como se a opacidade fosse um luxo. Então, pensamos que a casa nunca se desmorona totalmente. Mesmo quando nada fica de pé, o estrondo é difícil de esconder e nada ficou para contrabandear. Nem sequer um último trago de magia, ou o rasto dos perfumes do fim da tarde. Mas não é assim. Fazer de conta que os escombros não estão lá é o mesmo que imaginar que sempre lá estiveram. A vertigem da queda é prosaica e quase sempre brutal. Sem metáforas. Pois as palavras de consolo são, ainda assim, uma manobra de diversão. Mas às vezes, é o que nos resta. Porque a casa ruiu connosco lá dentro. E haverá ainda palavras para quando sairmos de lá. A poesia não é a verdade, como dizia o bardo de Weimar, mas pode salvar.

* No calendário vegetal celta, designa a Hera

** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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