Segundo a Direção-Geral da Saúde, o tabaco está associado a mais de 11 mil mortes por ano, representando um dos principais fatores de doença e morte em Portugal. Apesar de a maioria dos fumadores conhecer os riscos, deixar de fumar continua a ser um enorme desafio.
Os efeitos do tabaco vão muito para além do aumento do risco de cancro e de doenças cardiovasculares ou respiratórias. Fumar pode comprometer progressivamente a qualidade de vida, causando falta de ar ao subir escadas, tosse persistente, cansaço e menor capacidade para fazer exercício. Muitas vezes, por surgirem de forma lenta e progressiva, estas limitações são encaradas como efeitos normais do envelhecimento e deixam de ser reconhecidas como consequências do consumo de tabaco.
A boa notícia é que nunca é tarde para deixar de fumar. Os benefícios começam poucas horas após o último cigarro e prolongam-se ao longo dos anos. Respira-se melhor, recupera-se energia e capacidade física e, ao mesmo tempo, reduz-se progressivamente o risco de enfarte, de acidente vascular cerebral (AVC) e de vários tipos de cancro. Deixar de fumar permite, por isso, ganhar saúde, qualidade de vida e liberdade no dia a dia.
Na prática clínica, acompanho um elevado número de pessoas que, apesar de manifestarem vontade de parar de fumar, não conseguem dar esse passo sozinhas. Isto acontece porque o tabagismo é uma dependência que envolve fatores físicos, psicológicos e comportamentais, pelo que a força de vontade nem sempre é suficiente.
Deixar de fumar é, muitas vezes, um processo que requer acompanhamento e, ainda assim, pode exigir várias tentativas. Neste contexto, uma recaída não tem de representar um fracasso, mas antes uma oportunidade para identificar dificuldades, ajustar estratégias e voltar a tentar.
É por isso que o acompanhamento profissional pode fazer a diferença. Este é um processo que implica lidar com a dependência, a ansiedade, a alteração de hábitos e, por vezes, o receio de aumentar de peso. Uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médicos de Medicina Geral e Familiar e de Pneumologia, enfermeiros, psicólogos e nutricionistas, permite responder a todos os desafios e adaptar o plano às necessidades de cada pessoa.
As unidades dedicadas à cessação tabágica, com equipas preparadas para prestar um acompanhamento individualizado ao longo deste percurso, podem ter um papel importante pela resposta integrada que oferecem. Parar de fumar não deve ser um acontecimento isolado, mas uma decisão apoiada e acompanhada.
A quem está a pensar dar este passo, deixo duas mensagens simples: não espere pelo momento perfeito, nem tente fazê-lo sozinho. Procurar ajuda pode fazer toda a diferença.
* Médico especialista em Medicina Geral e Familiar no Hospital CUF Viseu
N.R.: Esta secção é uma colaboração mensal do Hospital CUF Viseu, na qual os seus profissionais partilham conselhos e dão dicas sobre saúde.


