Numa floresta muito antiga havia um coro de pássaros. Cantavam juntos havia alguns anos. Tinham aprendido as mesmas músicas, afinavam as vozes uns pelos outros e, quando se preparavam para o outono, toda a floresta parava para os ouvir.
Mas nenhum dos pássaros tinha a mesma voz. Um dia, um deles decidiu cantar uma nota diferente. Não porque quisesse destruir o coro. Não porque achasse que os outros não sabiam cantar. Apenas porque acreditava que aquela nota fazia falta. Alguns pássaros gostaram. Outros acharam-na desnecessária.
E os mais velhos disseram:
— Se cada um cantar a nota que entender, deixamos de ser um coro.
O pássaro respondeu:
— Mas se todos tiverem de cantar sempre a mesma nota, para que precisamos de tantas vozes?
A discussão chegou ao maestro. O maestro ouviu os dois lados e disse:
— Quando entraste neste coro, sabias que havia uma melodia.
— Eu sei — respondeu o pássaro.
— E sabias que não podias mudá-la sempre que quisesses.
— Também sei.
— Então tens responsabilidades para com os outros.
O pássaro baixou a cabeça. Mas depois perguntou:
— E o coro não tem responsabilidades para comigo?
O maestro ficou em silêncio. Porque também sabia que um coro que nunca escuta uma nota diferente pode acabar a cantar perfeitamente uma música que já ninguém quer ouvir. Durante alguns dias, ninguém cantou. Cada pássaro esperava que o outro desse o primeiro passo. Até que, numa manhã, o maestro levantou a asa. O coro começou. O pássaro cantou a melodia que todos conheciam. E, no momento certo, introduziu a sua nota. Alguns acompanharam-no. Outros mantiveram a melodia original. E alguns ficaram em silêncio. A música não ficou perfeita. Também não ficou pior. Ficou diferente. Quando terminou, ninguém soube dizer quem tinha ganho. Mas, antes de abandonarem os ramos, o maestro chamou todos os pássaros.
— Há uma coisa que ainda precisamos de aprender — disse.
Os pássaros aproximaram-se.
— Uma voz livre não pode ser confundida com uma voz sem cuidado.
O pássaro que tinha começado a discussão olhou para ele.
— Como assim?
— Podes cantar a tua nota — respondeu o maestro. — Podes discordar da melodia. Podes até dizer que achas que estamos a cantar mal. Mas, antes de afirmares que outro pássaro esconde alguma coisa, que canta por interesse ou que tem uma intenção que não conheces, deves ter a certeza do que estás a dizer. O pássaro ficou calado.
— Porque há palavras que, depois de lançadas ao vento — continuou o maestro — já não sabemos onde vão pousar.
Uma pequena cotovia perguntou:
— Então não podemos dizer aquilo que pensamos?
— Podem — respondeu a velha coruja, que entretanto se aproximara.
— Mas pensar antes de falar também faz parte da liberdade. E acrescentou:
— Uma suspeita pode ser uma pergunta. Uma pergunta pode ser legítima. Mas uma suspeita não se transforma em verdade só porque foi dita em voz alta.
Os pássaros ficaram em silêncio. Desta vez, ninguém tinha sido repreendido. Ninguém tinha sido absolvido. Todos tinham aprendido qualquer coisa. O pássaro percebeu que ser livre não o dispensava de ser responsável pelas suas palavras. O coro percebeu que exigir responsabilidade não podia significar exigir silêncio. E talvez nenhum deles tivesse aprendido tudo. Naquela tarde, voltaram a cantar. O pássaro manteve a sua nota. O coro manteve a sua melodia. E, entre uma coisa e outra, aprenderam a deixar espaço para o silêncio. Porque às vezes é no silêncio que uma palavra é pensada duas vezes. E uma palavra pensada duas vezes pode evitar uma ferida que uma floresta inteira demoraria anos a esquecer. (Moral da história ver em: https://numa-floresta.vercel.app )
* Fábula meramente fictícia. Qualquer semelhança com pessoas, lugares ou acontecimentos da realidade humana é obviamente fruto do acaso. Se alguém nela reconhecer alguém ou alguma situação, será apenas porque, por vezes, a realidade tem uma imaginação difícil de superar.


