Em 28 de maio de 1926, o general Costa Gomes liderou um pronunciamento militar que rapidamente, e quase sem oposição, viria a tomar conta do país. A Primeira República tinha-se tornado numa sucessão infindável de governos e golpes palacianos sem fim à vista. Em 16 anos, o país tinha visto 40 governos e estava cansado de tanta balbúrdia. Muitos diriam que se gritava por uma revolução. Iriam tê-la.
Salazar vem de Coimbra para ocupar o Ministério das Finanças e acabar com o descontrolo das contas públicas. A ditadura militar iria acabar com a balbúrdia e com a sucessão de governos. Em 1932, Salazar assume o cargo de primeiro-ministro e em 1933 é aprovada uma nova constituição da República. Nem tudo foi mau a partir daí, mas a miséria e a falta de liberdade consolidam-se. É criada a Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (PVDE), depois renomeada PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e com o Marcelismo DGS (Direção-Geral de Segurança). O objetivo dessas polícias é a repressão política e o amordaçar das oposições. Essa mordaça aperta-se com a instauração de Censura Prévia, que autorizava ou não todas as publicações, e com a prisão de oposicionistas, que até 1974 viriam cumulativamente a atingir cerca de 50.000.
Há apenas um partido, a União Nacional, e as eleições para a presidência da República são manipuladas. Norton de Matos e Humberto Delgado, depois assassinado pela PIDE a ordens de Salazar, não tiveram qualquer hipótese.
Passam-se, entretanto, os anos e as décadas e Portugal continua teimosamente a ser o país mais pobre da Europa. Essa pobreza reflete-se em tudo, por exemplo, no défice alimentar dos portugueses. A estatura dos jovens assinala precisamente isso: uma média de 1,64 metros para os homens, que comparam com os 1,77 de hoje. O saneamento básico e a água canalizada eram um luxo. A eletricidade também. Em 1970, no Montebarro, a menos de cinco quilómetros da cidade da Guarda, não havia eletricidade ou água canalizada, nem esgotos. Nas ruas viam-se crianças descalças, malnutridas e de dentes podres. A esperança de vida à nascença era de 64-65 anos para os homens e de 70-72 anos para as mulheres. A mortalidade infantil era de cinco a seis por cento (é hoje de duas a três mortes por cada mil nados vivos). Repito: passou de cinco em cada cem para dois por mil. A proteção na doença, no desemprego e na velhice cobria apenas uma pequena parte da população. Nas fábricas de têxteis e lanifícios começava-se a trabalhar com 9 anos, para salários miseráveis.
As mulheres não podiam votar (para quê?) e precisavam de autorização para tudo e mais alguma coisa. Havia um procedimento cautelar de restituição judicial da mulher ao marido. Em cada café havia um informador da PIDE a ouvir as conversas.
Podia continuar. Podia agora falar da guerra, ou das guerras, em África e das dezenas, ou centenas, de milhares de mortos, portugueses e africanos. Podia falar da corrupção que ajudava também a apodrecer o regime, dos milhões que optaram por emigrar e dos muitos que optaram por não voltar. Podia falar do depois do 25 de Abril, de como se passou de menos de 1% de frequência universitária para cerca de 40%, mas lá vêm com a “quarta classe de antigamente” em que se sabiam de cor todos os rios, do Minho a Timor, mas não vale a pena.
Há um Portugal que ficou lá, que não aprendeu nada para lá do livro da quarta classe e que continua a achar que há liberdade a mais e que tudo se resolvia com um, dois, três Salazares. Acredito que é o que querem, mas há uma dúvida que me assalta: se André Ventura viesse a ser primeiro-ministro, quem escolheria para dirigir a PIDE?


