Opinião de António Ferreira: Coisas que o Ventura diz

Escrito por António Ferreira

O Ventura acha que “isto” é uma bandalheira soterrada em corrupção há 50 anos e que só ele pode pôr ordem no país (nisto). Para esse magno desígnio é indispensável, segundo ele, diminuir o número de imigrantes, expulsando pelo menos os que estiverem ilegais, dar murros na mesa, tirar os subsídios aos ciganos e mandar José Sócrates para a cadeia. Há outras coisas, como a castração química e a prisão perpétua, mas nada de muito memorável.
Aceito que muitas dessas propostas têm como principal ou único objectivo chocar o público. Muitos acreditam que o país precisa de um tratamento de choque e se alguém falar com um tom tonitruante, mesmo que vazio de conteúdo, terá de certeza audiência. Mesmo assim, há que fazer perguntas.
Sobre a corrupção, precisamos de colocar as coisas em contexto. Se em Portugal a percepção da corrupção é elevada, no sentido de que as pessoas em geral acreditam haver muita, a realidade não é essa. Como dizia no “Público” Arlindo Oliveira (2 de fevereiro, “A percepção e a experiência da corrupção em Portugal”), a realidade da corrupção é muito inferior àquilo que se julga, mostrando que Portugal é afinal um país pouco corrupto. Se Ventura tencionava cumprir as suas promessas eleitorais com os ganhos obtidos com a eliminação da corrupção, bem pode ir procurar financiamento noutro lado. O problema de soluções simplórias para problemas complexos é que quando são desmascaradas o castelo de cartas desmorona-se.
Tonitrua ainda o Ventura contra os últimos 50 anos, altura em que, deduzo, foi destruído o legado da Arcádia prístina que existia antes. Esse mundo, em que só faltavam mais dois salazares (pelo menos) para a coisa ser perfeita, era o do analfabetismo, da corrupção generalizada, das estradas de terra batida, das bocas de dentes podres e dos pés descalços. Nada que impressione o Ventura, que só pede uma oportunidade, e ser eleito presidente, para meter na cadeia o José Sócrates. Não diz como, limita-se a berrá-lo dando murros na mesa. Para ele, não há presunção de inocência nem a necessidade de um julgamento justo. Ele tem a percepção (mais uma!) de que Sócrates é culpado e, tendo ele a percepção, não precisa de juízes, leis ou Constituição. Por ele, também Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues, contra quem nada se provou, são exemplos de criminosos que deveriam ser presos. Não diz porquê, ou de que informações e provas dispõe para essa acusação (aliás, crapulosa), mas atira-a sem qualquer hesitação ou vergonha.
Haveria muito mais, mas isto já é suficientemente mau. Muitos acham que entre ele e Seguro venha o diabo e escolha, mas estarão a ver bem? A plataforma política de Ventura é um vazio de ideias e as únicas com alguma substância deveriam ser rejeitadas por qualquer pessoa civilizada. O que ele diz e faz é muito mau, como mau é o que se vai fazendo na sombra, como a criação de milícias e as fábricas das falsidades que se despejam nas redes sociais.
É verdade que o país precisa de uma limpeza, mas essa limpeza deveria começar por essa figura desagradável. A diferença numa democracia é que a limpeza é feita nas urnas, começando no próximo domingo.

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António Ferreira

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