Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: No frio da navalha

Donald Trump insiste que quer a Gronelândia. O resto do mundo protesta, mas eu compreendo. Quem é que não gostaria de ter umas cidadezinhas com casinhas coloridas como se fossem peças de Lego (que, por ironia da história, é uma empresa dinamarquesa)?
Ser dono da Gronelândia não é uma ambição imperialista. É uma aspiração estética. O nome da Gronelândia (que quer dizer em nórdico antigo “Terra Verde”) foi-lhe dado por Erik, O Vermelho. E agora é desejada por Donald, o laranja. Invadir a Gronelândia é como roubar o catálogo da Pantone.
Na Gronelândia, há alguns dias em que o Sol não se vê e outros em que o Sol não desaparece. É o lugar ideal para quem, como eu, tem alguma dificuldade em cumprir horários e prazos à risca. Na Gronelândia, “logo à noite” pode ser três meses depois.
A Gronelândia é uma ilha gigantesca com poucas pessoas, óptimo para fugir de multidões. Filas e engarrafamentos também devem ser muito raras. Se Trump mandar invadir a Gronelândia, é provável que organize um comício em Nuuk e diga que estiveram lá 300 mil pessoas a saudar o novo colono, apesar de na ilha viverem pouco menos de 60 mil.
Num território inóspito como esse, é possível tocar clarinete a qualquer hora sem incomodar ninguém. Se acordar um urso, é provável que ele não chame a polícia. Na pior das hipóteses, o urso come o clarinetista, o que é até mais célere e menos burocrático que uma deslocação das forças da ordem. Pelas mesmas razões, é mais fácil estacionar um Boeing 737 na Gronelândia do que um Smart no centro de Lisboa.
É perfeitamente compreensível que Donald Trump sinta esta compulsão pela ilha do Atlântico Norte. Nesta fase da vida, até a terra gelada da Gronelândia é mais calorosa do que a sua vida conjugal. E com a anexação da Gronelândia, a temperatura média dos EUA desce imediatamente, contrariando as teses do aquecimento global.
O presidente do EUA pediu aos chefes militares para planearem a invasão da Gronelândia, e lidarem à força, se for preciso, com as criaturas que habitam esse território. Foi nessa altura que os militares explicaram a Trump que os pinguins vivem no Pólo Sul.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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