Guarda: 820 anos

As comemorações da concessão do foral por D. Sancho I, em 1199, à Guarda é uma efeméride extraordinária e merecedora da maior celebração.

Muito mais do que falar da sua história, coube nestas comemorações olhar para o futuro com otimismo, mesmo quando as circunstâncias tolhem vontades e desígnios. A Guarda cidade, a Guarda concelho e a Guarda capital de distrito e de diocese têm um passado glorioso, um presente difícil e um futuro promissor. O lançamento dos Passadiços do Mondego ou a instalação da escultura do “Montanheiro” numa artéria da cidade (uma obra notável de Pedro Figueiredo) e a abertura da Cidade Natal eram, per si, razões suficientes para contribuir para a motivação e orgulho dos guardenses.
Mas era na sessão solene que tinham de estar centradas as atenções. Nos discursos, nos apelos, nos momentos…

Havia três notas relevantes a perceber e uma nota de rodapé. Começando por esta, dizer que é sempre importante uma terra laurear os seus, homenagear os que se distinguem, aplaudir publicamente os melhores, e saudar todos os homenageados (ainda que não se perceba muito bem o que alguns fizeram pela cidade), do Escape Livre à Casa do Bom Café, passando pelos trabalhadores do município galardoados.

E interpretarmos as notas relevantes. Os discursos pobres, a homenagem a dois ilustres guardenses e a presença da Ministra da Valorização do Território.

Cidália Valbom, que habitualmente apresenta boas intervenções, começou por recordar um artigo de opinião de Ana Abrunhosa, publicado no jornal Público a 9 de setembro, quando ainda era presidente da CCDRC, e onde, corajosamente, assumiu que é necessário «gerir o declínio» e deixar para trás algumas «porções importantes» do território. A presidente da Assembleia Municipal falava para o PSD local, para aqueles que defendem a “terrinha” e querem todo o investimento público possível e imaginário para as aldeias que há muito perderam o futuro. Cidália Valbom não concorda com Ana Abrunhosa, que agora, como ministra, será perseguida por esse toque de racionalidade, e quis agradar à populaça que não quer perceber que para salvar o interior é preciso fazer escolhas e deixar para trás alguns territórios que há muito deixaram de ter presente – o que, como a agora ministra tantas vezes salientou, não significa que não se deva dignificar e promover as melhores condições de vida aos que vivem em meios há muito abandonados e perdidos no tempo. Governar é fazer escolhas e, seja a nível central ou local, para se dar futuro às vilas e cidades da região, teremos de perder algumas aldeias – o que não se pode é continuar a gastar milhares de euros em lugares onde vivem meia dúzia de pessoas, por muita estima e carinho que nos mereçam… Depois a intervenção do presidente da Câmara da Guarda. Chaves Monteiro recordou a ministra das promessas que o governo fez e prometeu não se calar até ver cumpridas algumas das obrigações que o poder central tem para com a Guarda. Pragmático, ainda que pouco eloquente, o autarca formalizou a mensagem de forma ambiciosa e destinou ao Governo, e desde logo à Ministra Ana Abrunhosa, a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso da Guarda do futuro.

A ministra da Coesão Territorial chegou há pouco tempo ao governo, mas sabe bem o que a espera. Como aqui recordei quando foi empossada, Ana Abrunhosa conhece o terreno e, como salientou na sua intervenção na Guarda, no seguimento da tragédia dos incêndios de 2017 sentiu de perto a miséria e a pobreza, o abandono e o isolamento das povoações despovoadas e ostracizadas de um país que até ela pensava já não existirem. Por isso, ou também por isso, ela sabe que há «partes» que vão ter de ficar para trás. Ana Abrunhosa não estava ali para destoar do tom, valorizou o interior, aposta num futuro integrador, com políticas diferenciadoras e inclusivas, e comprometeu-se como uma guardense, porque aos 15 anos veio «viver sozinha para a Guarda» e sabe o que é ter de deixar muito para trás. Foi, de resto, a única a ser interrompida pelo aplauso generalizado, quando, emocionada, recordou os tempos em que foi aluna no «liceu da Guarda», «uma das melhores escolas do país».

E a última nota relevante. O aplauso generalizado a Rui M. Costa o neurocientista que já foi homenageado pelo Presidente da República e pelo Estado português, mas que a cidade ainda não tinha aplaudido de forma oficial. E do atual Diretor-Geral das Artes que também já tinha sido homenageado pelo país (pela Ministra da Cultura) e que agora a cidade medalhou. Américo Rodrigues, no exercício da sua função, encontra-se no estrangeiro e por isso não pôde receber a medalha da cidade pessoalmente, o que evitou constrangimentos ao executivo que o expulsou da cidade (Álvaro Amaro desclassificou-o). A Medalha de Mérito do Município senta-lhes como uma luva, a eles e aos demais. Parabéns à Guarda por 820 Anos e por ter homenageado alguns dos seus mais ilustres filhos, Ana Abrunhosa incluída.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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