O Hotel Turismo da Guarda tornou-se, desde 2020, um símbolo de tudo o que corre mal quando o Estado, as autarquias e os concessionários se enredam numa sucessão de anúncios, promessas e adiamentos. Do abandono à expetativa de recuperação, da esperança à frustração, a história é conhecida… e cansativa. Por isso, a recente decisão do Governo de revogar o contrato de concessão à Enatur foi recebida como mais um capítulo de uma epopeia negativa que parece não ter fim.
Este deve ser, por isso, o momento de inverter o olhar. Em vez de mais um lamento coletivo, importa perguntar se esta rutura não abre, finalmente, uma janela de oportunidade séria para a Guarda. Não apenas para o turismo, mas também para o ensino superior, a qualificação profissional e a fixação de jovens na cidade.
Tem-se repetido que há privados “interessados” no imóvel. Admitamos que sim. A questão essencial, porém, não é apenas se existem interessados, mas a que preço, em que modelo e com que compromisso territorial. Um hotel de quatro estrelas isolado, dependente de ciclos económicos voláteis e de uma procura turística irregular, dificilmente será útil à cidade. Pode até funcionar durante alguns anos, mas corre o risco de claudicar.
A Guarda dispõe, paradoxalmente, de um ativo estratégico subaproveitado: a formação em turismo. A Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia, integrada no Instituto Politécnico da Guarda, apresenta grande qualidade formativa, apesar de níveis de frequência aquém do desejável. O Hotel Turismo da Guarda pode funcionar como escola prática para os alunos de Seia, trazendo mais estudantes para a cidade e, ao mesmo tempo, tornando a entrada nos primeiros anos da licenciatura em Seia mais atrativos para finalistas do ensino secundário em todo o país.
Sem retirar alunos a Seia – pelo contrário, atraindo-os para lá – o antigo Hotel Turismo pode ganhar uma nova vida como hotel-escola, à semelhança de modelos bem-sucedidos em Portugal e no estrangeiro. Um equipamento que funcione simultaneamente como unidade hoteleira aberta ao público e como laboratório vivo de formação em hotelaria, restauração, turismo de natureza, gestão e sustentabilidade. Um espaço onde estudantes aprendem, docentes investigam e empresas testam soluções.
Um hotel-escola na Guarda permitirá articular turismo de montanha, património histórico, gastronomia regional e inovação, criando valor económico e qualificando o território. Para além de trazer turistas, fixará também docentes e estudantes ano após ano.
* Presidente do Conselho Distrital da SEDES Guarda e da Assembleia de Freguesia da Guarda


