As declarações do presidente da Câmara da Guarda, Sérgio Costa, acusando a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) de fazer um «mau trabalho pelo interior» – dizendo que os investimentos acabam por se concentrar no litoral – trouxeram para o centro do debate uma questão decisiva para o futuro do território: a captação de investimento. A estas declarações respondeu António Monteirinho, em nome da oposição socialista, sublinhando a necessidade de maior proatividade e recusando a lógica de permanente desresponsabilização. Este debate é necessário, útil e até urgente, mas deve servir, acima de tudo, para mobilizar vontades, definir estratégias e assumir responsabilidades – não para alimentar uma narrativa de fatalismo que em nada transforma a realidade.
A verdade é simples: a Guarda não pode ficar sentada à espera que os investimentos caiam do céu. Nenhum território cresce por inércia, nem se afirma apenas com base em reivindicações. O investimento não é um ato de caridade institucional é uma escolha estratégica das empresas, que procuram territórios dinâmicos, lideranças comprometidas e projetos credíveis.
Durante demasiado tempo, o interior habituou-se a uma narrativa de resignação, a política do “coitadinho”, do território esquecido, prejudicado e eternamente dependente das decisões dos outros. Mas esta narrativa, quando se transforma em estratégia, deixa de ser uma explicação e passa a ser um problema: um território que se apresenta como vítima nunca se afirma como protagonista.
A Guarda tem condições competitivas reais: posição geográfica estratégica, proximidade à fronteira, qualidade de vida, custos controlados e capacidade instalada. Mas essas vantagens não falam por si, precisam de quem as promova e as transforme em oportunidades concretas.
Captar investimento exige trabalho contínuo, exige presença onde as decisões são tomadas. Exige construir relações, apresentar propostas, convencer investidores e transmitir confiança. Exige iniciativa política e ambição institucional. Não basta esperar que outros façam por nós aquilo que nos compete fazer. Os parceiros institucionais são importantes, mas não substituem o papel insubstituível da liderança local.
A Guarda tem de escolher que papel quer desempenhar: continuar a lamentar o que não tem, ou afirmar-se pelo que pode conquistar. O futuro não se espera. Trabalha-se. Conquista-se. Constrói-se. O discurso de incapacidade, e de impotência, do autarca é um péssimo sinal para um mandato que acaba de começar.
* Presidente do Conselho Distrital da SEDES Guarda e da Assembleia de Freguesia da Guarda


