Entre a razão e o genocídio, a irrelevância da ONU

Em 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque contra Israel, que ficou conhecido como o dia mais mortífero em Israel desde a sua criação em 1948. O ataque, denominado “Operação Tempestade Al Aqsa”, marcou o início de mais um conflito intenso na região. Morreram mais de 1.200 pessoas e 251 foram levadas como reféns pelo Hamas para a Faixa de Gaza. Israel respondeu com uma guerra sem tréguas, argumentando que enquanto não houvesse a libertação de todos os reféns, não iria parar. Entretanto, e apesar das muitas negociações e dos apelos à paz, Israel prometeu intensificar a guerra até que o Hamas devolva os 59 reféns que ainda mantém em seu poder, dos quais se acredita que 24 estejam vivos. Israel exige também que o grupo abandone o poder, se desarme e envie os seus líderes para o exílio.
Israel tem Donald Trump como aliado para seguir a sua política de destruição de Gaza, e a conivência da Europa. Enquanto o Hamas tinha o Irão como suporte antissionista.
Não sou dos que olham para a Palestina e só encontra culpa do lado de Israel. Quando Marcelo Rebelo de Sousa, em visita ao Bazar diplomático, disse ao representante diplomático da Palestina em Portugal que «desta vez, vocês é que começaram», os defensores da causa palestiniana criticaram violentamente o Presidente. Tanto que, mais tarde, já sob uma chuva de críticas, o Presidente da República veio dizer que não disse o que tinha acabado de dizer… Mariana Mortágua, como sempre na primeira fila da causa palestiniana em Portugal, nunca criticou o Hamas pelo ataque sangrento e absurdo de 7 de outubro, mas nesse mesmo dia considerou que «as palavras de Marcelo envergonham Portugal».
Se a 3 de novembro de 2023 Marcelo Rebelo de Sousa tinha razão, passados quase dois anos, e mesmo depois de o Presidente se ter arrependido de dizer o que disse… o comentário é ainda mais assertivo: O ataque do Hamas foi o detonador de um conflito sem precedentes e o início de uma guerra arrasadora e cruel. Tanto que, mesmo para quem como eu considere que a razão não está, nunca está, apenas de um lado, Israel foi longe de mais na forma como executou um massacre em Gaza, mas esta tragédia começou no dia 7 de outubro e o Hamas continua sem entregar os reféns, e disso ninguém se deve esquecer, mesmo quando choramos pelo genocídio que Israel perpetra em Gaza.
Infelizmente, e uma vez mais contrariando grande parte da opinião pública portuguesa, a ONU tornou-se irrelevante no conflito (neste, como na Ucrânia), nomeadamente pelos muitos erros e tomadas de posição de António Guterres. Todos concordamos que Israel não pode continuar com esta chacina e há muito percebemos que a solução passa pela autodeterminação palestiniana – dois estados –, e o Secretário-Geral da ONU era a única pessoa que poderia liderar esse processo, se tivesse mantido a isenção, distanciamento e a superior magistratura de influência. Lamentavelmente, o atual Secretário-Geral das Nações Unidas vai ficar associado a um tempo negro, belicoso e de grande conflitualidade no mundo. Em Gaza tomou partido pela causa palestiniana, apoiou erradamente a reciprocidade dos funcionários das Nações Unidas, que têm servido de escudo do Hamas, deixou de ser ouvido e a ONU deixou de ser respeitada. Como estabelece a Carta das Nações Unidas, o Secretário-Geral deve ser sempre independente e imparcial. Guterres não o foi e por isso a ONU passou a ser irrelevante. Uma tragédia para o mundo!

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

Deixe comentário