Editorial de Luís Baptista-Martins: Viremo-nos para o futuro

No país, as dúvidas entre o fim do bipartidarismo e a ambição de André Ventura de ganhar em 30 câmaras – foram as primeiras eleições autárquicas depois da explosão do Chega – deixavam dúvidas até ao fecho da contagem dos votos das Autárquicas de domingo. Foram também as eleições de maior renovação de lideranças municipais, em que mais de 130 presidentes de câmara foram impedidos de se recandidatar por limitação de mandatos. A ansiedade tomara conta das estruturas partidárias, mas quando os votos foram contados, o país continuou a ser o mesmo: O PSD dominou de norte a sul, ganhando Lisboa, Porto, Sintra (onde Ana Mendes Godinho foi derrotada), Gaia ou em Beja; O PS perdeu, mas resistiu à erosão com a vitória em Coimbra (com Ana Abrunhosa), em Bragança ou em Viseu; O Chega perdeu, ainda que tenha ganho três autarquias, atrás das 12 da CDU e das seis do CDS.
Na região os olhos estavam postos na Guarda. Conseguiria Sérgio Costa alcançar a maioria pedida? Ou a coligação PSD/CDS/IL lograria dar lastro à “Guarda com ambição”? O PS resistiria? E conseguiria o Chega eleger um vereador?
Depois de há quatro ano Sérgio Costa ter surpreendido pela ousadia, com uma campanha de proximidade, porta-a-porta, envolvendo a população com sucesso, a candidatura precaveu-se contra reclamações e protestos formais “contratando” com os partidos “Nós Cidadãos” e “PPM”. Impávido e sereno, Sérgio Costa reforçou a equipa, apresentando listas em 38 freguesias, dominando o concelho e atraindo apoios imprevistos na cidade, apresentando uma lista para o executivo reforçada, mais qualificada e vigorosa. Evitando as tricas, reforçou o seu compromisso com a população, sereno nos debates (três), nunca foi devidamente confrontado pelos opositores, e passou a mensagem de que a oposição não o deixou fazer mais. O apoio popular foi uma constante, por mérito do candidato e da estrutura, e nem a “aldrabice” de uma sondagem desfavorável no último dia de campanha desmotivou os apoiantes. A vitória acabou por ser um passeio pelo concelho com a maioria desejada – foi reeleito presidente da Câmara da Guarda com 45,92% (11.168 votos, mais três mil que há quatro anos) e elegeu quatro vereadores.
O PSD demorou a escolher o candidato e, depois de apostar em João Prata, fez as contas e acreditou que a soma da coligação com o CDS e IL lhe poderia dar a vitória – a assinatura do acordo de aliança foi mesmo o melhor momento da candidatura de João Prata. A partir daí foram erros atrás de erros. O primeiro, a lista escolhida pelo candidato: O segundo lugar era determinante e João Prata errou – Alexandra Isidro dividiu os militantes do PSD e não tem notoriedade, nem reconhecimento público; deu o terceiro lugar ao CDS; a primeira militante do PSD apareceu em quarto lugar… Depois, não existiram propostas diferenciadoras ou foram mal explicadas, o candidato não percebeu que nos tempos atuais uma frase com mais de três segundos é uma eternidade e, nos debates, mostrou-se sempre quezilento e mais preocupado em falar do passado, quando os eleitores ansiavam por vislumbrar o futuro – João Prata perdeu as eleições no debate que a Rádio Altitude organizou no NERGA, a partir daí a apreciação do candidato foi sempre a descer. O PSD foi derrotado, teve menos votos em 2025 em coligação do que em 2021 sozinho, e nem mesmo a vitória para a Junta de Freguesia de Chaves Monteiro atenua o péssimo resultado da coligação “Guarda com Ambição”. Se em 2021 Chaves Monteiro foi o perdedor, agora foi o ganhador, se souber gerir os silêncios poderá ser o candidato à Câmara em 2029, pelo PSD, se o partido o quiser, ou pelo PS.
O Partido Socialista, depois do péssimo resultado de 2021 e num contexto nacional negativo para a esquerda, ambicionava manter um vereador no executivo e não perder votos. Conseguiu um mandato, mas perdeu votos. António Monteirinho preparou-se e fez uma renovação difícil. Mas ao renovar, afastou alguns notáveis que não apreciaram o atrevimento e terão preferido votar no PG. Com uma comunicação moderna e boa presença nos debates, a António Monteirinho faltou o reconhecimento popular e o apoio dos socialistas… Pode ter sido o fim do socialista ou o ponto de partida para ser o candidato em 2029.
Por último o Chega. Luís Soares contou sempre com a “marca” André Ventura e nunca foi mais do que isso. Perdeu estrondosamente.
No distrito, apesar do ruído, nada de novo.
Daqui a quatro anos há mais!

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Luís Baptista-Martins

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