Finais de setembro: pouco sei sobre os programas eleitorais, na Guarda ou nas principais cidades do país. À falta de melhor informação, distraio-me com cartazes e slogans. Os cartazes parecem todos demasiado artificiais, muito editados. Na obediência a um formato já generalizado, o candidato aparece à esquerda, com o rosto digitalmente limpo de imperfeições. Do lado direito uma frase, em que se procura resumir o espírito da candidatura. As do Chega repetem-se pelo país fora: Salvar a Guarda, Salvar Castelo Branco, Limpar Setúbal, Mudar a Covilhã, Defender Lisboa. Tenho perguntas: a Covilhã e Lisboa já não têm salvação? Setúbal e a Guarda são indefensáveis? Entre todos os slogans de todos os partidos e candidaturas, sobressaem um de Belmonte (Terra de Esperança) e outro de Lisboa (Por ti, Lisboa); outro slogan em Lisboa, embora bom e com uma homenagem a Carlos do Carmo, era demasiado longo (Lisboa, Cidade das Nossas Vidas). Na Guarda só vi banalidades.
6 de outubro: segunda ronda de cartazes, já salpicados de promessas, umas mais faraónicas que outras. Os incumbentes já esqueceram o prometido nas eleições que lhes deram o poder; os outros prometem gratuitamente. Se perderem, não têm de cumprir; se ganharem e não cumprirem, sempre podem culpar a oposição, a conjuntura, a guerra da Ucrânia ou o aquecimento global. Interessa é prometerem mais, ou melhor ou, no caso dos incumbentes, terem quem culpar.
Verifico, entretanto, quem está nas listas. Mas este tipo não era do PS? E esta, não esteve no PSD, e antes disso no PS? Sim, e não. Formalmente sim, mas na realidade ele, ou ela, apenas foram fiéis às suas ambições pessoais. As folhas das árvores também mudam de cor, não é?
10 de outubro: encerramento da campanha. Os partidos e coligações queimam os últimos cartuchos. No sítio onde estou passa uma longa caravana de carros a buzinar. Tenho de esperar que passe o último para atravessar a rua. Penso se este périplo pelas aldeias do concelho irá trazer a essa candidatura um voto suplementar que seja. Acredito que não, que alguém que estivesse hesitante poderia até mudar de ideias, perante a ofensa gratuita de tantas buzinas.
11 de outubro: estou longe do meu local de residência mas estou em reflexão. É um ato inútil, já que não vou poder votar. É certo que não tinha decidido em quem, mas tenho a certeza de uma coisa que me tranquiliza – não é pela falta do meu voto que a Guarda vai perder um grande autarca.
12 de outubro, 20h30: Lisboa está empatada; o Porto também. Na Guarda, a coligação Pela Guarda leva grande vantagem, por enquanto apenas nas freguesias mais pequenas. O Chega ainda não ganhou nenhuma Câmara. A nível nacional, o PS leva clara vantagem sobre o PSD. Tudo pode mudar ainda, mas já não tenho idade para fazer noitadas em frente à televisão, nem sinto qualquer ansiedade perante o que estas eleições possam trazer, ao país, à minha cidade ou à aldeia onde estou.
13 de outubro, 14h41: estou em Setúbal, à espera do início de um julgamento. Aqui ganhou uma lista de cidadãos, apoiada pelo PSD. A nova presidente da Câmara é uma antiga autarca do PCP, que entretanto mudou de opinião e poderá vir a mudar de novo. O Chega não limpou nada (ou o objetivo era salvar Setúbal?). Em Lisboa, Moedas herda uma cidade suja e caótica, problemas que tentará certamente imputar ao antecessor imediato. Na Guarda, Sérgio Costa vai-se manter na presidência, agora com maioria absoluta. Tem quatro anos para cumprir as promessas que fez. As de agora e as do mandato anterior.


