Em dezembro, comentei aqui (https://www.ointerior.pt/opiniao/editorial-de-luis-baptista-martins-uma-sociedade-sem-imprensa/) a ameaça da VASP de deixar o interior do país sem distribuição de jornais e revistas – nos distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança. Felizmente, para já, a ameaça não foi concretizada. Entre o bom senso, o protesto generalizado e a promessa do Governo procurar um caminho para apoiar a distribuidora, as publicações continuam a chegar ao interior e qualquer cidadão, residente ou forasteiro, tem acesso e pode adquirir revistas e jornais.
Mas para a imprensa regional este não é, nem será, o drama (a maioria dos jornais regionais, entre envio por correio para assinantes e distribuição própria de proximidade, como é o caso de O INTERIOR, têm resolvido o problema e, em geral, não dependem da VASP), dependem da capacidade de trabalho, esforço e dedicação dos seus trabalhadores e colaboradores.
O mais importante para a imprensa regional, jornais ou rádios, é o contexto económico e as medidas de apoio que possam permitir a sua sobrevivência. No tempo do digital, os jornais online são um serviço público pago pelos editores, isto é, a generalidade do trabalho informativo é partilhado gratuitamente e quase ninguém está disponível para pagar por uma notícia ou ser assinante e pagar para ter acesso aos conteúdos informativos – o trabalho jornalístico tem sido tão desvalorizado, por culpa de todos, mas em primeiro lugar dos jornais, que para ganharem leitores e seguidores, passaram a dar acesso gratuito a toda a gente, e raros são os que se dispõem a pagar o trabalho de quem escreve e informa. O leitor pode ser assinante de O INTERIOR em https://www.ointerior.pt/planos-de-subscricao/ e pagar a assinatura digital ou em papel (a assinatura digital custa €1 por mês; a assinatura em papel custa €2,91 por mês, €35 por ano).
À interioridade junta-se a pobreza de leitura (somos o país com mais baixa taxa de leitura de jornais da Europa, em 2020 apenas 1,2 em cada 10 portugueses diziam ler diariamente um jornal ou uma revista. Porém, há cada vez mais leitores que depois de terem migrado para o digital, querem continuar a ler em papel – o leitor de revistas e jornais volta a ser, como sempre foi, uma elite: os que têm mais cultura querem ler, reler, sublinhar, recortar, guardar… – ler jornais é saber mais.
Este é o país que somos. Um país deslumbrado com a Internet, mas que continua a ser de analfabetos, de cidadãos que nunca compraram jornais nem leram um livro. Um país onde a alfabetização cresceu de forma extraordinária, mas cujo nível cultural continua na idade das cavernas. Onde a sociedade mal preparada e inculta continua pouco preocupada com valores como a democracia, a liberdade, o direito a estar informado ou a pluralidade de opinião.
Portugal tem mais de 80 concelhos sem jornais e rádios de informação. Ou seja, num terço do país não há jornais ou rádios locais que possam informar, divulgar ou escrutinar a vida pública: o “deserto de notícias” – uma tragédia cultural, social e política. Brevemente voltarei ao assunto para comentar uma outra dimensão: a Noruega ou os Países Baixos pagam aos jornais para treinar modelos de IA. Portugal não. A inteligência artificial portuguesa (Amália) vai pagar às universidades para treinar modelos e formular uma IA lusa, mas para criar um modelo de IA são precisos dados, como textos de jornais e outros conteúdos com direitos de autor protegidos – vão utilizar conteúdos produzidos nos jornais, mas ninguém quer pagar aos jornais.


