Contemplação acrítica da liberdade criativa

Escrito por João Mendes Rosa

No átrio de “O homem universal” Teixeira de Pascoaes confessava que escrevia «como quem conversa, em voz alta, consigo mesmo». Bernanos – perdoe o leitor o recurso excessivo ao autor de “Les enfants humiliés”’, mas faço-o para me certificar de que continuo fiel à criança que fui – alargava o espectro recetor, mas ainda assim declarava que escrevia pensando no seu horizonte de amizades, naqueles que o conheciam «muito antes de o terem lido». Todavia não desconsiderava o leitor impessoal, ignoto, que ele consubstancia nessa entidade vocabular carregada de dúplice significação antropológica que é “os outros”: «Ao invés de os desdenhar, desejava compreendê-los melhor, porque compreender já é amar». E acrescentava: «… e que me lerão depois de eu desaparecer». Obviamente que estamos perante o mesmo egoísmo criativo: Bernanos concede uma extensão de si mesmo às amizades mas é inegável que a sua liberdade enquanto escritor se confina a si mesmo, aos seu mundo interior, sem condescendência para quem poderia dele depender ou divergir, ou até quem lhe satisfazia a míngua de pão.

Mesmo quando a filha mais nova do enérgico oposicionista ao regime de Vichy – no seu exílio no Brasil, consequente à tibieza do governo francês face às imposições asfixiadoras da Alemanha nazi – lhe exibia uma folha em branco, dizendo: «Papá – escreve, porque temos fome!», jamais condescendia perante a sua convicção de ser o leitor de si mesmo antes de tudo, o espírito austero e implacável revelado na atitude de recusar a condecoração com a Ordre National de la Légion d’Honneur com que De Gaulle o queria distinguir, apesar da admiração que nutria pelo estratega da Resistência Francesa. Na verdade, é preciso apagar muitas velas para que o escritor produza livremente, imune aos juízos daqueles a quem a palavra jamais foi dirigida e estarão, por conseguinte, fora de qualquer vislumbre de sentido confessional ou literário.

Todavia, escrever sem a mira da empatia ou do compromisso o que decorrente da nossa própria convicção é a mais ingrata das disposições, dada a improvável consensualidade dos leitores ante a proposta de um universo amplamente pessoal, em que o real e o fantástico se confundem; em que a biografia e o curriculum se desencontram; em que o imaginário subalterniza a lógica aritmética do quotidiano.

O fracasso editorial de um génio como León Bloy – que quase ninguém lê – decorre precisamente desse ímpeto criador que se desapieda do resultado extrínseco à obra. Olho o panorama literário nacional e vejo um punhado de autores absolutamente consagrados. A maioria jovens. Leio e logo nas primeiras páginas questiono-me sobre as razões da consagração. Parece-me que talvez estejamos perante literatos aparentemente desafetos ao escrúpulo da personalização, que vão ao encontro do público e da crítica com uma ligeireza confrangedora, procurando projetarem-se nos “outros”, fazer dos “outros” coautores da sua produção. Afora os apresentadores de telejornais – que nem seque me merecem a mais ténue referência – contemplo acriticamente uma vaga de publicistas que escrevem livros sob o desiderato do “politicamente correto”, em que os protagonistas são criaturas reais, decalcadas de uma sociedade violentamente atual, numa contemplação ultrarrealista do mundo hodierno: são vegetarianos, gays, não-fumadores e abstémios.

Quem me conhece sabe que sou absolutamente complacente e benévolo perante as opções de vida ou a natureza de cada um. Seja ela qual for. Mas falamos de literatura. E transformar a criação literária num repositório de conveniências existenciais é a mais abjeta das condições do criador. É confinar a natureza poética da existência a um conceito “puramente científico” ou “aritmético-geométrico” ou “quantitativo-extensivo” (Pascoais dixit). Escrevo isto sem qualquer intenção crítica. Entretanto recoloco o livro na estante da livraria e abandono o espaço ligeiramente persuadido, desta vez, de que saio dela mais pobre. E penso na inversão de valores. Talvez Bernanos, Pascoaes ou Bloy – com uma acrescida dose de talento – pudessem subscrever estas linhas. Tal como eles, escrevi-as como quem fala «consigo mesmo». «Não desdenho os outros; ao invés de os desdenhar desejava compreendê-los melhor. Porque compreender já é amar».

* Escritor

Sobre o autor

João Mendes Rosa

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