A mais comum das características humanas

Escrito por Fidélia Pissarra

É certo que a tendência de envelhecimento da população, os baixos níveis de escolaridade, a prevalência de população religiosa e o aumento de utilizadores de redes sociais e de aplicações de mensagens para aceder a notícias, aliadas à ansiedade e ao medo, que diminuem o raciocínio crítico, deixam um número crescente de pessoas cada vez mais vulneráveis à desinformação. Porém, estes não serão os únicos fatores a favorecer este fenómeno porque, bem se sabe, a maioria não quer a verdade, apenas a mentira que mais lhe agrade. E, embora a maioria das vezes a informação falsa seja disseminada sem se saber que o é, ocorre frequentemente haver a consciência de que muita da informação que se consome é falsa ou que, assentando em informação verdadeira, o contexto tenha sido maliciosamente alterado, com os dados privados a serem divulgados no intuito de humilhar ou denegrir alguém. Processos que, pela vaidade destes indivíduos se quererem apresentar como pessoas informadas, desejosos de ajudar e de pertencer a grupos com as mesmas ideias, acabam a erodir os fundamentos da nossa humanidade partilhada. Talvez possa não ser assim tão difícil poder imaginar que não seja por desonestidade e má-fé que o fazem, mas pela mais comum das características humanas: a estupidez. O mais provável é que, a julgar pelo modo como agem e se adaptam, a maioria deles as aglomere.
Se não, vejamos, de tão estúpidos acabam por eles próprios não poder ignorar que só conseguem dar nas vistas como aquilo que são. O que, por um lado os deixará ainda mais ansiosos e receosos, e, por outro, os deixará cada vez mais arreliados e vingativos. O que, como já vimos, constantemente lhes diminuirá a possibilidade de raciocínio crítico. Aqui, todavia, teremos de ser compreensivos. Um individuo que, incapaz de entender – o que pode acontecer a qualquer um – as instruções, perante o olhar incrédulo de quem espera a sua vez para abastecer, se põe a deitar o combustível para o chão, só para que posto de combustíveis não lhe fique com o dinheiro que ele acha que pagou, que hipótese de raciocinar terá? Nenhuma. O normal seria que procurasse por ajuda, no local, na Internet, onde quer que fosse, para não continuar a querer enfiar no depósito o combustível que o depósito já não comportava, mas, convenhamos, pedir ajuda, arruinando a imagem que ele quer que as pessoas tenham dele, autónomo, informado e muito moderno, em momento algum foi coisa que lhe pudesse passar pela cabeça. Claro que, depois desta e doutras parecidas, não nos podemos admirar se dermos com ele a vociferar impropérios numa rede social qualquer contra tudo e contra todos, que um homem também não é de ferro, e, à falta de uns árbitros para insultar, por pausa do interregno no campeonato de futebol, qualquer cidadão servirá. Se for um político que não seja da extrema-direita, tanto melhor. Porque já se sabe, nada, nem ninguém como um pregador extremo-direitista para compreender as vicissitudes de tanto estúpido.

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Fidélia Pissarra

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