A inutilidade das coisas

Escrito por Maria Afonso

Descalço inicia uma caminhada em círculos, primeiro lentamente, até alcançar o ritmo de uma corrida desgovernada. Sabe bem por onde vai. Um quinteto de cordas confere-lhe a cadência. Poderia levantar os braços e voar, lentamente, como as aves que antes de migrar temem a despedida. Mas prefere prolongar o tempo naquele espaço de luz. A voz pode tocar o céu e baixar ao inferno. A um assombro tudo é consentido. E assim se deita e chora sobre as teclas do piano. Ajoelha-se como se tivesse a incumbência de pedir perdão por uma dor daquelas que rareiam e atira lanças de indulgência. Os que o observam tombam-lhe aos pés, como as aves estonteadas no regresso. Cambaleia e acaba por se encolher até tomar a forma da caixa de pedra que o viu nascer.
Há uns dias, numa conversa, alguém referiu ser a cegueira que nos permite ver. Só nesse momento compreendi a necessidade de cerrar os olhos com força para os abrir, de seguida, arrebatadamente. Encontrei ser essa a razão da claridade quando a luz tem o dom de desviar as sombras. E revi-me nos instantes de escuridade mais forte que a noite debaixo de um penhasco a aguardar as tempestades. Ou nos dias em que o medo do escuro me imobilizava. Se tivesse aberto os olhos a essa cegueira teria evitado os suores frios estouvados como o orvalho que a manhã nunca pedira. Pintaria, por certo, uma bonita aguarela. Afinal uma imagem é aquilo que somos. Pelo menos foi o que esse alguém afirmou nessa conversa. E eu acredito. Porque tal como ele também acredito no que as pessoas me dizem.
Que sabes tu da arte de construir catedrais sonoras. Dominarás, por ventura, os tons mais agudos a que certas cordas vocais podem regressar? No dia de acção de graças envolves o corpo do teu amor, depois de o encadeares ao teu, num manto branco florido de vermelho? Esboçarias uma natureza morta onde uma árvore nua te protegesse e certos frutos e algum vinho te nutrissem? Brincaria, diante de vós, uma criança com um pedaço do pão nas mãos, como se a existência inteira se fixasse nesse instante? Numa matiz pastosa considerarias dizer obrigada? Então, passa as tuas mãos orgânicas sobre o piano e diz – vou amar-te para sempre.
Ler é observar o mundo, aludiu a certa altura da conversa. E vamos por aí fora contando as histórias e os cantos do mundo por onde já passámos. Os reais. Particularmente os idealizados. Onde os homens dizem que podem britar glaciares e descoagular sóis. Mundos assim só vistos. Os ouvidos a repetirem sons vividos em subterrâneos aéreos. Em palcos aquáticos por onde as escamas dos peixes maiores espreitam, como se dissessem – um dia habitaremos a terra. O mundo universo a comemorar os nomes furtivos. Sonatas de outono a dizerem adeus. Templos gregos a ridicularizar os deuses que jamais serão maiores do que os homens.
E os dedos a abrirem-se em franjas de seda, certificadas cordas vocais, a vibrar, a tecerem novos dias, paisagens silenciosas e quietas no olhar ingénuo da criança que sabe ser o pão a paz futura. O quinteto de cordas e a dança em nós. O sonho e o choro da exultação estendidos na toalha de pedra onde o sol projecta a sombra do meio dia. Alguns, cegos, a ler o mundo. E a mudez exterior daqueles que acreditam no olhar frontal das pessoas.

* A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

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Maria Afonso

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