A inutilidade das coisas

Foi num equinócio assim. As folhas principiavam o seu lento suicídio. O olhar da mulher a fixar-se nas árvores. Sempre acreditara ter o poder de acalentar nos seus olhos o bailado das árvores. Às vezes esticava as mãos e, dos dedos, uma energia enraizada na humidade da terra coloria folha por folha. Imprimia-lhes nomes como se baptizasse os filhos de todos os homens. A brandura do vento morno destapava os céus nas noites menos quentes. As mãos riscavam nos olhos relâmpagos secos desejosos de incendiar as árvores. Envolvê-las no brilho das labaredas. Teriam a matiz da chama inicial. Outras cumpririam o ritual até ao rubor.
Nesse equinócio a mulher vestiu-se de branco e tingiu de negro os cabelos para renunciar ao inverno. Desafiou o vôo sem acautelar a translação da terra. Como abrir o peito que desfolha os céus, que incendeia as sombras, que risca as árvores e silencia a terra. De que cor se encobriria o silêncio nas mãos abertas a quererem invadir o núcleo da terra. A chuva era ainda imperceptível, mas não tardaria que aquele som, inesperadamente seco, lhe ferisse o impermeável e quebrasse espelhos.
Um rumor distante anunciava o trote dos cavalos. O lago estremecia nessa estranheza.
A mulher amava a estrada e todos os gestos prováveis. Um espaço incomensurável entre o desnorte e o sul empurrava-a para a terra de ninguém. Ah, o norte, esse engano! Os pontos cardeais somos nós, para onde quer que a nossa alma aponte, tinham-lhe dito. Desconhecia que tinha uma agulha desmagnetizada na alma. Abria a boca e a chuva tinha o sabor da chuva. As crinas revolvidas dos cavalos eram trilhos emaranhados.
Teimam em plantar amores-perfeitos sob a copa das árvores. Cada folha é um cisne triste. Não é intemperança exigir morrer em paz. Apodrecer e ser húmus. De que servem os amores-perfeitos num túmulo por edificar?
Meditamos e olhamo-nos ao espelho até darmos as mãos e sermos corpos de árvores ao amanhecer. Contorcemo-nos ou dançamos. As árvores tingidas elevam-se das cordas de um violino e enraízam-se nos dedos que roçam os sons. A mulher pensa que tem uma flor no cabelo. O rosto translúcido, quase transparente. Um batom avermelhado a esbater-se ocupa o espaço à volta de uma idealizada lagoa.
Num gesto de pureza corta os cabelos com uma espada. As folhas soltam-se e caiem como caiem as folhas. Só um céu e dois pináculos de catedral sabem do seu amor ou da sua dor. O tempo é balizado por sombras de grades impossíveis. Algumas aves fazem um bando e uma bicicleta abandonada traz os cheiros primeiros. Da janela ainda vê as linhas de uma velha estação. Algumas árvores secas encobertas num vapor intemporal.
As ruas desertas enviam-lhe os reflexos de uma chuva fora de tempo. Eis o túnel e a luz que se lhe segue. E logo a ponte.
As horas e os dias naquele banco do jardim de anjos caídos. Os cães e os seus donos. Os nomes com que se chamam os cães já não são os mesmos de antes. Os cães abandonados a gemer baixinho. Fala-lhes ao ouvido e diz que tem de ir. Antes que o outono termine. A beleza do outono é sempre proporcional à sua idade. Gosta de calcar as folhas secas quando sobe à torre e uma subtil música de fundo lhe aponta a cidade alargada à sua frente.
O outono é a sua genuinidade. O cristal melado. O seu covil. O seu molhe. Um dia morrerá no outono. Com o outono. Na terra gretada onde as placas não indicam caminhos. No cabelo a flor. O corpo purgado de folhas mortas. O equinócio resguardado, vincado na pele. Os lábios semi-abertos a segredar – setembro, outubro, novembro.

* A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Maria Afonso

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