A inutilidade das coisas

Escrito por Maria Afonso

Olhamos as mãos e tacteamos as cicatrizes. Há sempre o risco iminente de se abrirem, retalhadas, pela lâmina de uma dor invulgar. Seremos eternamente inocentes enquanto não estivermos em frente de corpos débeis, temporariamente deitados, em camas de lençóis gastos. Algo como uma involuntária telepatia lança-nos o olhar do outro. Num relâmpago a névoa infiltra-se em nós. Envolve-nos. Consome-nos. Ainda que o tempo tenha perpetuado, ali ao lado, afloramentos majestosos de rocha dura que ninguém ousa beliscar.

Nesse dia o vento varre-nos por dentro, abruptamente. Ataca os nossos corpos dormentes e faz das veias ferrões – venenos de antídotos ignorados. Da rosa colhida no dia anterior ainda se sente o aroma. Mas uma fusão de pó e sopro turva-nos o olhar numa hipnose magoada. Nós que sempre afirmámos não acreditar em certas palavras e negámos a sua substância um dia atrás do outro. Que as pedras não sedimentam nos olhos e que aquelas mãos não cessariam de levar a água às fontes.

Tentáculos ávidos de uma vingança incompreensível apoderam-se de nós. Arremessam golpes ao acaso. Prendem-nos o pescoço como cordas aos mastros de navios em sombrias tempestades. São inúteis as bússolas e desconhecemos como nos guiar pelo sol. O oceano emana intranquilidade e o naufrágio pode ser real. A dor é um ser estranho que nos habita e possui. Nunca torna-se uma palavra consentida, sarça ardente num monte despido de nada. Adormecemos de olhos abertos numa anestesiada letargia.

Saímos à procura de nós. Corremos desenfreados na premência de voltar onde ninguém nos espera. Levamos nos olhos a nitidez da ausência. Somos ágeis nos porquês. Intimamos o cosmos. Ditamos ultimatos como trovões e injuriamos os precipícios. O chão a desabar mutilando pássaros debilitados. Voamos em telas rasgadas com palavras duras, reflexos do rio da memória. O sol é um disco gigante que muitas vezes se esquece de acordar. Recusamos ler nos lábios dos outros os ensinamentos que a nossa vontade quer abater.

Passamos a vida a fugir da morte. Enganamos os dias sacudindo a mão como se o virar da esquina fosse o levitar de uma folha branca. Um dia a mão cega destapa o punhal e os enigmas da vida não nos cabem dentro. Sem percebermos o epicentro da dor, um sismo assola todos os músculos, quebra os ossos pela metade. Caminhamos sobre ruínas enquanto a luz sonda a frincha da nossa porta. Recusamos abrir. Num inconsciente voto de clausura vestimos o hábito de um pesar desmedido.

Alguém nos lembra o pensamento hindu que assenta na tónica do acordo perfeito do ser. Que cada um terá oportunidade de se rever na sua origem. Que no todo encontramos a consciência de nós. Que o uno não se vê, não se toca mas mexe e reconforta o peito. Que um novo paradigma nos erguerá dos destroços. As cicatrizes são agora um dos lugares do mapa da nossa vida. Estivemos ali. Já se degastaram as distintas faces que a dor tem. Seremos, então, detonadores de uma caverna de luz absoluta.

Sobre o autor

Maria Afonso

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