O Solar do Mondego: Fado, Pedras e Glória
De há muitos anos que aquele casarão, situado sentinela à beira da Estrada Nacional 16, na Lageosa do Mondego, me impressiona. Pela qualidade arquitetónica do solar – porque é de um solar de linhagem que se trata –, pela sua localização estratégica e pelo facto, bem visível, de ser um edifício de traço antigo que parece ter aterrado naquele espaço apenas ontem.
Em torno dele, o povo, sempre dado ao maravilhoso, teceu lendas. Dizia-se que possuía tantas portas e janelas quantos os dias do ano, com uma abertura especial, mais modesta, reservada apenas para os anos bissextos. Outros sussurravam a verdade técnica, não menos espantosa: que o casarão fora desmantelado e numerado, pedra a pedra, e transportado de Vale de Azares, no concelho de Celorico da Beira, para ali ser reerguido por mãos de quem a fortuna parecia não ter fim. Havia que saber mais. E a verdade, como o granito, é dura e cheia de veios profundos.
O gigante de Vale de Azares: O esqueleto da memória
O edifício original era o Solar dos Amarais, também conhecido como Solar de Fonte Arcada. Estava implantado no lugar homónimo, um dos quatro povos que constituem a freguesia de Vale de Azares. Era uma casa senhorial imponente, de três pisos, cuja fachada principal ostentava uma pedra de armas que materializava a união entre os Amarais e os Cabrais, linhagens que definiram a importância social da região durante séculos.
Acoplada à imponente residência, erguia-se a frontaria de uma capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo. Rezava a tradição que a sua imagem viera do vizinho Solar da Ratoeira como penhor de uma aliança matrimonial entre famílias. O solar não era apenas uma casa; era o centro gravitacional de um vasto património agrícola e social. Contudo, o destino reservava-lhe o fogo. No início do século XX, um incêndio devastador consumiu as suas entranhas, deixando apenas o esqueleto de pedra a vigiar a aldeia, numa agonia de silêncio e silvas que duraria décadas.
O patriarca e o império de pedra
A forma monumental que o solar exibia antes da ruína deveu-se ao Dr. José Feliciano Amaral Cabral Saraiva. Nascido a 18 de agosto de 1816, formou-se em Leis pela Universidade de Coimbra na década de 1830, num tempo de profundas revoluções liberais. O título de “Doutor” era, para ele, mais do que um grau académico; era um brasão intelectual que consolidava o seu papel como líder incontestado na região.
O seu casamento com D. Luciana Leopoldina Saraiva unificou os apelidos que definiram a heráldica da casa: Amaral, Cabral e Saraiva. Durante o seu auge, em meados do século XIX, José Feliciano não poupou recursos. Construir com aquela magnitude em Vale de Azares era uma afirmação de poder contra o tempo. Mas o poder traz conflitos. A família viveu uma “guerra pessoal” terrível, uma contenda pública que gerou libelos e panfletos apaixonados, onde o Dr. José Feliciano se batia contra o próprio genro em tribunais e tipografias, defendendo a honra e o património que a pedra teimava em segurar.
Após a sua morte, em 1888, o solar passou para os seus herdeiros, fundindo-se com a linhagem dos Cabral Metelo. António do Amaral Cabral Saraiva, filho do patriarca, casou-se com D. Maria da Conceição Freire Cortez Cabral Metelo, unindo os morgadios de Maçainhas, Alpedrinha e Celorico. Foi a última geração a conhecer o solar no seu esplendor, antes das crises da Primeira República, do abandono e do incêndio que transformaria a glória em “encargo de pedras”.
1971: O resgate das “Senhoras de Coimbra”
A propriedade chegou à década de 70 em regime de compropriedade, partilhada por herdeiras que o povo conhecia como as “senhoras de Coimbra”: D. Lúcia e D. Maria do Carmo Amaral Cabral Metelo. Eram descendentes de uma nobreza que mantinha o prestígio do apelido, mas carecia da liquidez necessária para restaurar uma ruína de tal envergadura.
Foi então que surgiu o Dr. José de Sousa Mendes de Rezende. Brasileiro de nacionalidade, mas de raízes profundamente fincadas em Vale de Azares, Rezende não comprou apenas um terreno; comprou a memória visual da sua infância e da sua estirpe. O contrato de venda foi cirúrgico e inédito na região: permitia ao comprador desmantelar e levar toda a cantaria trabalhada – janelas, portas, cunhais e o brasão.
Este ato não foi um simples capricho, foi um resgate de linhagem. A família Rezende, de Vale de Azares, fizera fortuna no Brasil. Ter o solar original da sua terra natal reconstruído num domínio próprio, na Lageosa do Mondego, era a forma definitiva de “limpar a honra da casa” e afirmar o sucesso da sua linhagem perante a velha fidalguia decrépita.
O fado na Quinta dos Corgos: Alexandre de Rezende
O comprador era filho de Alexandre de Rezende, uma figura mítica, um verdadeiro “bon vivant” e compositor de génio. Foi ele o autor de clássicos do fado de Coimbra como “O meu menino é d’oiro” e “Meia Noite ao Luar”, temas imortalizados por Amália Rodrigues. Esta veia artística e boémia explica a estética dada à Quinta dos Corgos e à contígua Quinta das Primas.
Alexandre, que frequentou o Liceu da Guarda antes de Coimbra, era o epítome do espírito fraterno. Na sua casa em Celas, Coimbra, havia sempre lugar para estudantes com dificuldades. Descrito como «alto, esbelto, delgadinho, valente e destemido», Alexandre era um mestre da guitarra e um «copo valente». Nada o vencia: nem a bebida, nem os desafios da vida. Cantava a alma da Beira enquanto o filho, o Dr. José de Sousa Mendes de Rezende, planeava erguer um palco de granito para essa mesma elite cultural.
Contudo, na reconstrução do solar em 1974, algo de fundamental se perdeu. A pedra de armas original de 1816, que simbolizava a união dos Cabrais e Amarais, não foi colocada na fachada principal. No seu lugar, surgiu uma réplica moderna, uma interpretação que tentava mimetizar o passado, mas que denunciava a mão de outro tempo. O destino da pedra original foi trágico: o escudo foi relegado para o jardim, servindo de suporte a um varandim, enquanto a “cabra dos Cabrais” – o timbre heráldico – a foi mutilada e colocada como decoração num lago da propriedade.
O elmo e o silêncio: O ciclo da transumância
Hoje, quem visita a Quinta dos Corgos encontra um cenário que ecoa as letras melancólicas de Alexandre de Rezende. O solar, reconstruído com tanto esforço na década de 70 para funcionar como hotel e restaurante de prestígio, encontra-se novamente em degradação. Após décadas de glória, e um período menos nobre como casa de “diversão noturna”, o edifício encerrou em 2014.
Há uma ironia poética neste desfecho. Alexandre de Rezende imortalizou a alma da Beira na música. O seu filho tentou imortalizar a mesma memória no granito, movendo montanhas de pedra para a beira da estrada. O resultado é uma estrofe de fado escrita em rocha: a glória que se desfaz e a saudade do que já foi.
O elmo dos Cabrais, vigiando as águas paradas de um lago na Lageosa, é a representação física dessa “Meia-Noite ao Luar”. É o testemunho mudo de uma família que teve tudo – o sangue, o dinheiro, a música e a pedra – mas que não conseguiu vencer o tempo. O Solar de Vale de Azares continua a ser um gigante transumante, habitando um espaço que não é o seu, ostentando uma heráldica que hoje poucos sabem ler, mas que guarda, em cada poro do seu granito, os ecos de uma guerra de família e a doçura eterna de um fado de Amália.
Cronologia da Linhagem e da Pedra:
• 1816: Nasce o Dr. José Feliciano Amaral Cabral Saraiva.
• 1856: Nasce António do Amaral Cabral Saraiva, o continuador da casa.
• 1888: Morte do patriarca José Feliciano.
• 1900: Morte de António do Amaral no Grichoso; início da decadência do solar.
• 1929: O trágico suicídio de Álvaro do Amaral Cabral, marcando o fim de uma era.
• 1971: O Dr. José de Sousa Mendes de Rezende adquire a ruína às “senhoras de Coimbra”.
• 1974: Conclusão do transporte e reedificação na Lageosa do Mondego.
• 1982: O solar é convertido em hotel e restaurante pela sociedade Setuval.
• 2014-2026: Encerramento, devolução aos proprietários e colocação à venda. O ciclo da pedra aguarda um novo fado.


