Aqui ao lado, o governo de Madrid, dirigido pela da “cruz” (uma videirinha que gosta de respaldar as suas ideias políticas na religião católica e evoca a cruz por tudo e por nada), acha que «Madrid conta de maneira natural com a unidade do conjunto da nação espanhola e com a sociedade que anseia ser livre e que vêm elegendo a liberdade», revogou recentemente a lei que reconhecia a liberdade a cada um de ser aquilo que é eliminando os direitos LGBTQIA+.
Por cá, como se ser-se aquilo que se é fosse uma ideologia, o PSD, o CDS e o Chega aprovaram um diploma que proíbe a colocação ou exibição de bandeiras associadas a movimentos considerados ideológicos quer no exterior, quer no interior de edifícios públicos, monumentos ou mastros. De evidenciar que, no arranque do debate sobre tal diploma, o deputado João Almeida, do CDS-PP – considerando que o direito de cada um poder ser o que é não passa de um fator de clivagem social, de uma modernice absurda – defendeu que «os edifícios públicos não estão ao serviço da propaganda, do divisionismo, nem das vanguardas que acham muito engraçado hoje hastearem as suas bandeiras».
Ora, tendo em conta que o tal diploma proíbe ainda as bandeiras de países terceiros, nomeadamente da Ucrânia e Palestina, bem poderá significar que, para o tal deputado, qualquer manifestação oficial de solidariedade para com as nações atacadas por estados prepotentes e fora da lei internacional não passará também de um ato de propaganda e divisionismo vanguardista.
Aqui ao lado, a extrema-direita e a direita desejosa de a ultrapassar, sendo, aos olhos da lei, os cidadãos todos iguais e igualmente tratados por ela, dão agora em bradar, a plenos pulmões, que os espanhóis têm de estar em primeiro. Traduzindo-se, muito legitimamente, tais brados pela superioridade de que quem os profere se considera acometida, já muito pouco faltará, por isso, para que os da nobreza os sigam e desatem a clamar que os duques e condes têm de estar em primeiro. Evidentemente que logo seguidos por empresários, políticos, ricos, brancos, altos e por aí fora.
Por cá, talvez ainda não se identifique tal fenómeno. Mas, tenho cá para mim, não tardará. Infelizmente, estes, da “cruz” e das cruzadas, andarão tão arredados dos fundamentos da fé católica que nem com os seus santos padres se identificam. Ou, pior, ainda que, para já, sem o assumirem, considerarão este Papa e o seu antecessor, à semelhança do que consideram ser a defesa e efetivação dos direitos individuais das minorias, também propagandistas, divisionistas e vanguardistas «que se acham muito engraçados».
Entretanto, do outro lado do lago há um tresloucado que se considera ao nível de Jesus e poucos estranham. Em Israel, uma freira católica é brutalmente agredida por um cidadão judeu e pouco se repara. Em Portugal, há jovens a agredirem, gratuitamente, estrangeiros e a agredirem-se uns aos outros, em todo o lado e a toda a hora, e poucos se incomodam. Mas depois de agressões como as que estão a ser feitas, infelizmente entre muitos outros, aos palestinianos, libaneses e ucranianos se terem praticamente normalizado, também já nem, sequer, será de admirar.


