Muito em breve, o Hotel Turismo volta novamente a concurso público e com esse anúncio regressa também um ciclo que já conhecemos de cor, ou seja, a expectativa, a discussão, algum entusiasmo… e, quase sempre, a frustração.
Talvez esteja na altura de fazermos uma pergunta diferente.
Durante anos, o debate tem sido conduzido como se houvesse apenas uma solução possível, devolvendo o edifício ao fim hoteleiro para o qual foi concebido. Mas a questão essencial nunca foi essa. O problema do hotel nunca foi o turismo ou a sua carência, mas sim a falta de visão.
A insistência numa única função acabou por condicionar tudo o resto. Limitou o interesse de investidores, reduziu a margem de criatividade e acima de tudo, atrasou aquilo que devia ser a prioridade absoluta que é recuperação do edifício e a sua restituição à cidade.
Sejamos claros! O Hotel Turismo, hoje, não é um activo, é uma ausência. Uma ausência física, no coração da cidade. Uma ausência simbólica, na forma como lidamos com o nosso património e uma ausência estratégica, na incapacidade de decidir.
Mais importante do que discutir se aquele espaço deve ser um hotel, um alojamento de charme ou outra solução turística, é assumir que o essencial não é o que o edifício vai ser, mas que deixe, de uma vez por todas, de ser o que é hoje e isso exige abrir o debate.
Implica aceitar que o futuro do Hotel Turismo pode não passar, necessariamente, por uma unidade hoteleira clássica. Pode e talvez deva passar por um modelo híbrido, mais ajustado à realidade da Guarda.
Um espaço que combine comércio de proximidade, serviços, habitação e eventual, mas não necessariamente, uma componente turística. Um projecto que traga pessoas para o centro, que crie uma dinâmica económica e que devolva utilidade a um edifício que, há demasiado tempo, está condenado à inércia.
Às vezes, para salvar um edifício histórico, é preciso libertá-lo da sua função original.
Em Portugal, na Europa e no mundo não faltam exemplos disso. Em várias cidades, antigas estruturas foram reconvertidas com sucesso, precisamente porque alguém teve a coragem de não ficar preso ao passado. Em Lisboa, o Mercado da Ribeira transformou-se num dos pólos gastronómicos e turísticos mais dinâmicos do país. A LX Factory transformou um complexo industrial devoluto num vibrante centro criativo, cultural e empresarial. Aqui bem perto, na Covilhã, antigas fábricas têxteis foram reconvertidas em residências de estudantes, dando nova vida a espaços outrora abandonados. Em Londres, a antiga central elétrica de Battersea, eternizada na capa do álbum “Animals”, dos Pink Floyd, foi reconvertida num ambicioso projecto que integra habitação, comércio e serviços, devolvendo centralidade a uma zona outrora abandonada. O padrão é sempre o mesmo, com mercados transformados em polos culturais, fábricas convertidas em centros de inovação e edifícios devolutos reinventados como espaços multifuncionais.
Percebe-se aqui um denominador comum que é o rasgo visionário e é isso que, infelizmente, tem faltado neste processo.
Há quem receie que mudar de paradigma seja abdicar de ambição, mas o verdadeiro risco é continuar a insistir numa solução que, sucessivamente, não se concretiza. O maior risco não é mudar o projecto é continuar a adiar o futuro.
Cada novo concurso que falha não é apenas um procedimento administrativo que fica deserto ou apenas coroado de boas intenções. É mais um ano perdido. Mais degradação. Mais custos acumulados. Mais um sinal de que a cidade continua à espera e a Guarda já esperou tempo demais.
Este novo concurso pode ser apenas mais um episódio de um ciclo que já conhecemos ou pode ser, finalmente, o ponto de viragem, aquele momento em que deixamos de perguntar “que hotel queremos?” e passamos a perguntar “que relevância urbana queremos construir a partir daquele edifício?” até porque vale a pena imaginar, sem preconceitos, o impacto que teria naquele espaço e em todo o centro da Guarda um projeto verdadeiramente agregador, onde, entre outras valências, se instalassem marcas como uma Zara ou uma Fnac, não como fim em si mesmo, mas como âncoras de atração capazes de devolver fluxo, vida e centralidade a um imóvel que hoje se limita a esperar.
Porque, no fim, não está em causa apenas um edifício. Está em causa a nossa capacidade de decidir, de adaptar e de agir e essa é uma decisão que não pode continuar adiada.
A Guarda não precisa apenas de mais um concurso, precisa sim de uma decisão corajosa que transforme um símbolo de abandono num símbolo de futuro e devolva, de uma vez por todas, vida ao coração da cidade.
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos



