Seja pelo sacrífico, seja a troco de um pagamento de qualquer natureza, as divindades têm esta mania de partilhar as promessas que nos fazem de transformar a terra num paraíso. Só para os que se sacrificam, ou pagam, evidentemente. Claro que primeiro há que definir que paraíso será esse e a quem estará destinado. O que, ao longo dos tempos, seja pela natureza do ser divino em causa, seja pelas próprias ambições, até agora parece não ter sido difícil de adaptar aos respetivos crentes. Aparentemente, para cada inferno há sempre um paraíso. Aos pobres promete-se riqueza, aos atormentados paz e tranquilidade aos indignados. Claro que, nalguns casos, à falta de inferno há que simular um. Coisa que também nunca foi difícil e, se muitas vezes passou pelo medo da morte, matada, outras tantas passaria pelo medo da morte ficcionada. Morte da identidade, morte do statu quo, morte das horas ao sol e por aí fora.
Claro que para ascender ao estatuto de divindade grandes feitos e promessa terão de ser feitos, o que, à semelhança do resto, nestes casos, também não tem sido difícil. Quando os não há, ali à mão de semear, desde que resultem na criação instantânea de um deus dos modernos, inventam-se em menos de um ai. Mais a mais quando a natural apetência do ser humano, tanto para acreditar em milagres como em estórias da carochinha, assim o permite. O que, de algum modo, ajudará a compreender o atual sucesso, exclusivamente assente no zelo com que defendem a discrepância entre a realidade do que praticam e a interpretação que dela querem que façamos, da maioria dos políticos de direita. Parecendo levar muito a sério o que de Nietzsche aprendemos, “não existem factos, apenas interpretações”, alguns desses políticos até já se arrogam o direito a desprezar as aparências. Coisa que _ ainda que deste projeto interpretativo da realidade acabe por sobressair mais a ambição e a agressividade declarada a outras políticas, do que a devoção às próprias convicções – aos predispostos a assim serem catequizados, pouco tem importado.
Não fora por isso, talvez não tivéssemos atualmente como presidente dos Estados Unidos da América do Norte alguém com aspiração a ser um deus conotado com a moralização de um mundo de que, como bem se vê e sabe, apenas lhe interessa os recursos de que se quer apropriar. Tal como, não fora por isso, talvez não tivéssemos agora um primeiro-ministro tão empenhado em querer para si o que noutros, por alegadas irregularidades e falta de transparência, considerou inadmissível. Não fora, ainda, por isso, não veríamos o recrudescer deste torpe machismo, incluindo no feminino, que covardemente ataca as mulheres que se atrevem a expor a hipocrisia dos novos moralistas, nacionalistas e outros defensores da pátria que tais, não por medo do ataque em si mas pelo simples facto de serem mulheres. Não fora, finalmente, por isso, talvez nos faltassem deuses para tanta moralidade à solta, mas certamente que nos sobejaria moral para nos proteger de qualquer aspirante a deus que nos viesse por aí.



