Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Embaraço

Escrito por Diogo Cabrita

A mulher do carro branco convoca a sua extravagância. Percorre as ruas até ao palco das aventuras. Não pensa nos outros porque é feliz.
Vai no seu carro branco a casa do amante libertar as suas fantasias, o seu erotismo, a sua traição necessária ao equilíbrio da prisão.
Ela ficou amarrada entre filhos e responsabilidades matrimoniais. Ela vive assombrada pelo peso do que não viveu.
Hoje, enquanto conduz sorridente, tem a certeza que o seu corpo se vai entreter no corpo dele.
A traição não conta porque é feliz. A viagem é o bilhete do concerto onde tocam sons selvagens, desejos reprimidos, letras caladas.
A aventura da mulher do carro branco tem um preço elevado se a família descobrir.
Se não souber, não há dor. Se não se descuidar, não saberão.
O processo de equilíbrios emocionais é por essas razões muito complexo. A elaboração de um percurso cheio de excessos, de violações da norma de conduta trará na proporção inversa os arrependimentos e as acusações.
Nada importa, agora que o carro vai. É branco e puro. O imaculado da libertação desconstrói a desilusão depois. Mas não vai haver! Ela acredita que não vai acontecer.

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Diogo Cabrita

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