Opinião de Francisco Manso: Tempestades na Guarda, a neve e Augusto Gil

Escrito por Francisco Manso

Desde sempre, Portugal tem sido atingido por fenómenos meteorológicos extemos, com prejuízos elevadíssimos, quer em termos materiais, quer, sobretudo, pela elevada perda de vidas humanas. Mas, se em termos históricos essas situações não são uma novidade, existe uma grande diferença para os tempos de hoje, e é razão para alarme: a frequência com que têm ocorrido nos últimos tempos.
Estes acontecimentos, de que se destacou a tempestade Kristin, são agora um pretexto para relembrar alguns fenómenos atmosféricos que ao longo dos séculos têm atingido a nossa região. Não é fácil fazer o seu registo, e, ainda menos, atribuir-lhes uma localização precisa e o valor dos danos por eles provocados. Por vezes, resta-nos a memória coletiva, mas apenas para os de maior impacto social, pois as informações escritas e documentadas são raríssimas.
No dia 15 de março de 1909 um nevão extraordinário abateu-se por quase todo o país. Fez lembrar o frio e os nevões de 1879 e 1888, e o Inverno de 1944/45, mas, sobretudo, o nevão de 1829.

Videmonte. Nevão.

Videmonte. Nevão.

Guarda. Nevão.

Na literatura e nos registos paroquiais da época, 1829 é frequentemente referido como servindo de marco temporal para as gerações que se seguiram.
O nevão de 1829, que se estendeu pelo início de 1830, é um daqueles episódios meteorológicos que entraram para o folclore e para a história climática de Portugal (e de boa parte da Europa). Foi um evento climático extremo, que ocorreu num período conhecido por Pequena Idade do Gelo, caraterizado por invernos longos e uma descida generalizada da temperatura. A neve não se limitou à Estrela e ao Marão, desceu ao nível do mar, cobriu Lisboa e o Algarve. Outro aspeto importante foi a sua persistência, paralisando os transportes e a atividade económica. As temperaturas baixaram a níveis extremos. Congelaram fontes e ribeiros. Para as populações, sobretudo as do interior, foi dramático, pois ficaram completamente isoladas. Os animais morreram de frio e de fome, e as colheitas ficaram perdidas, agravando a situação de pobreza. O Inverno foi tão rigoroso que alguns rios da Europa, incluindo o Tejo nalgumas zonas, chegaram a congelar, permitindo a sua travessia a pé. Em Videmonte, aldeia serrana do concelho da Guarda, o rio Mondego “calou-se”, ou seja, deixou de se ouvir porque tinha gelado, o mesmo acontecendo na Mizarela, um pouco mais a montante. Existem registos históricos que referem o congelamento da aguardente, ou seja, as temperaturas teriam descido a mais de 20º. Nem os ovos escaparam. Como dizia o prior de Videmonte, José Duarte Lima, eram «muitas neves que nela caem, e algumas vezes duram mais de um mês». O também pároco dessa localidade, Maximiano Correia de Figueiredo, nos informa, em carta escrita em 1885, que nas serras de Videmonte a neve chegava a durar dois e três meses, criando condições especiais de dureza no modo de vida dos habitantes e na solidariedade, geralmente sob a forma de caridade, que era necessária para mitigar as dificuldades dos mais pobres.

O Inverno de 1879

Naquela época, os Invernos na Guarda não eram apenas frios: eram brutais e prolongados. O de 1879 é marcado pelo gelo, e recordado nos arquivos meteorológicos e históricos de Portugal como um dos mais frios do século XIX pela sua intensidade.

Rua D. Luís I, atual Rua 31 de Janeiro. Nevão.

Não foi um nevão isolado, foi uma série deles que, entre janeiro e fevereiro, castigaram a Guarda. As temperaturas desceram a níveis impensáveis, o gelo bloqueou as ruas da cidade durante semanas. Imaginem, pois, o isolamento das aldeias e dos campos.

Inverno de 1888: O ano dos grandes nevões

É o ano da acumulação

maciça de neve, famoso e conhecido em Espanha como “La Nevarona”. Na Guarda, a neve teria atingido mais de um metro de altura, formando verdadeiras paredes. Na cidade foi a paralisação total e os comboios da Linha da Beira Alta ficaram retidos, quase enterrados na neve.

O nevão de 1909

O ano de 1909 ficou marcado por um incrível nevão que, no dia 15 de março, cobriu o país. Foi um dos mais rigorosos de sempre, com semanas de neve acumulada e temperaturas extremamente baixas que congelaram as fontes e, no liceu, a tinta nos tinteiros, para gáudio dos alunos e arrelia dos professores.

A neve na Guarda e Augusto Gil

Para a Guarda, o nevão de 1909 é um dos episódios climatéricos mais emblemáticos, nomeadamente, em minha opinião, pela sua ligação à literatura e cultura portuguesa. Teria sido esse nevão que inspirou Augusto Gil, na sua célebre “Balada da Neve”, incluído no livro “Luar de Janeiro”. A obra foi publicada nesse ano (1909), seria mera coincidência? Nem o autor, nem Ladislau Patrício, nem João Patrício, que à sua vida e obra se dedicaram, nos esclarecem cabalmente. Mas aquela beleza «branca e pura» vista da vidraça,

Augusto Gil

contrastando com a «infinita tristeza» de ver crianças descalças e pobres a caminhar sobre o gelo, é de uma sensibilidade e de um encanto quase divinal. Que Augusto Gil testemunhou a rudeza e a grandeza desse nevão, não há dúvidas.

Augusto Gil

Formado em Direito na Universidade de Coimbra, regressou à Guarda, onde pretendia exercer advocacia. Mas não conseguiu clientela porque, como ele próprio confessou anos mais tarde, aqui viria a ser «o melhor poeta e o pior legista».
Não ganhava sequer para sustentar o vício do tabaco! E como não conseguiu ser professor do liceu, como era seu desejo, porque, imagine-se, o conselho escolar o considerou incompetente para reger a cadeira de Português, passou a viver em casa dos pais, António Gil Ferreira e Maria Jacinta Ferreira, na então Rua da Vitória e hoje Rua Augusto Gil, que o mantinham de comer e beber. E, foi aí, nessa casa, que compôs alguns dos seus melhores poemas, incluindo a imortal “Balada da Neve”. Talvez não o tenha escrito sob um manto de neve, ou numa noite de enregelar, porque na Guarda de então seriam terríveis: noite de cães. Como descreve numa missiva dirigida ao seu velho colega e amigo Diogo Peres, publicada sob a forma de “Carta a Diogo Peres”, no livro “Versos”, seria muito difícil e bem amargo escrever nessas circunstâncias. Mas escreveu…

Noite cães. Dezembro. No braseiro
Só restam dos carvões cinzas agora.
Rufa nos vidros como num pandeiro
A neve. E o vento pelas trinchas fora
Zumbe sinistro, estrídulo, agoireiro.

Para escrever esta carta que te envio
Desentorpeço as mãos à luz da vela
Mal fabricada com que me alumio.
O inverno aqui, neste degrau da Estrela,
Nem tu calculas como é triste e frio!

Não é por acaso que, referindo-se ao frio na Guarda, mesmo em junho, e pela mesma altura, bem dizia o dr. Joaquim Manuel Correia:

Fui ao S. João à Guarda,
Vim de lá morto de frio;
Hei-de lá voltar, não tarda,
Mas com fato de estio.

A morte de Augusto Gil

O grande poeta morreu em Lisboa, a 26 de fevereiro de 1929, mas quis repousar para sempre na terra que ele sempre amou. Jaz em jazigo mandado construir pela esposa. A esposa, Adelaide Sofia Outeiro Patrício, irmã de Ladislau Patrício, que foi o terceiro diretor do Sanatório Sousa Martins, e também poeta, vendeu os direitos de autor do marido para mandar erguer um mausoléu, o primeiro, logo à entrada, no cemitério da Guarda, do lado direito.
E, já agora, será que nas escolas da Guarda é reconhecido e transmitido aos alunos o valor do poeta?

* Investigador da história local e regional

REFERÊNCIAS:
CORREIA, Joaquim Manuel, Terras de Riba-Côa: Memórias Sobre o Concelho do Sabugal, Sabugal, 1946, p.349.
PATRÍCIO, João, Augusto Gil e o Amor
PATRÍCIO, João, Quando as Folhas Caem das Árvores
PATRÍCIO, Ladislau, Augusto Gil, Portugália, Lisboa
AUGUSTO GIL, “Tarde aziaga”, in Versos.

Sobre o autor

Francisco Manso

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